É Tudo Verdade, canção e alegria com Jair Rodrigues

Biografia do cantor levanta (ainda mais) o espírito do maior festival documental das Américas

(Fotos: Divulgação)


Depois de 25 primaveras dedicadas à triagem das expressões de resistência na brasilidade, o É Tudo Verdade, maior festival documental das Américas, em curso desde o dia 23 de setembro, não poderia deixar de fora um retrato investigativo do músico que mais (e melhor) tradução a alegria inata do seu povo em forma de samba e outras rítmicas: Jair Rodrigues de Oliveira (1939-2014).

O seu cartão de visitas estava nos versos “Deixa que digam/ Que pensem/ Que falem/ Deixa isso pra lá/ Vem pra cá/ O que que tem?/ Eu não estou fazendo nada/ Você também/ Faz mal bater um papo/Assim gostoso com alguém?”. É a música que dá nome ao filme de Rubens Rewald, “Jair Rodrigues – Deixa que Digam”. A sua estreia vai ser no dia 1 de outubro, às 21h,  no rol de dez longas-metragens brasileiras em competição online na 25ª edição do É Tudo Verdade. Os links das exibições estarão disponíveis no website www.etudoverdade.com.br.

A partir da fita sobre o cantor paulista de Igarapava, o evento envereda por uma reflexão sobre a afirmação da identidade negra e da perseverança das classes pobres do Brasil. Numa das suas canções, Jair anunciava: “Por onde andei/Só desengano encontrei/ Perdoei meus inimigos/ só amigos conquistei/ Plantei flores fiz sombra/ pra quem vier descansar/ Tirei pedras do caminho/ que é para outro passar”. Rewald levou Jair para o cinema em 2012, no filme de culto “Super Nada“. Passados seis anos da morte do músico, resolveu fazer da sua jornada pelos palcos, pela TV e pelas rádios matéria de saudade cinéfila.

Na entrevista a seguir, Rewald explica ao C7nema o simbolismo de Jair para a arte no Brasil.

A sua porção documentarista parece partir de retratos pessoais para, a partir deles, dissecar contextos sociais, como o futebol ou o samba. Mas que contextos de ordem política um ídolo da canção brasileira como Jair Rodrigues abre?

Rubens Rewald

Jair Rodrigues encarna um ideal de brasilidade presente no século XX, baseado na alegria, irreverência, excelência e simplicidade. O Brasil adorava ver-se como um país especial, alegre e “bonito por natureza”. Quase que um “povo escolhido”, substituindo os judeus do Velho Testamento. E Jair Rodrigues, junto com Pelé, encaixava-se perfeitamente nesse ideal. O facto de ele ser negro aumentava ainda mais o seu papel simbólico, pois afirmava a nossa tão propalada democracia racial. Porém, num meio mais intelectualizado da sua época, era criticado por não se colocar politicamente, tanto em relação à ditadura militar como à real situação do negro no país. Por isso foi taxado, assim como Pelé, de alienado. Hoje, décadas depois, essa crítica tem sido revista. Jair Rodrigues foi um ícone, um ídolo de trajetória ética irrepreensível, e isso é importante para a autoestima do movimento negro no país. A sua família, negra, ocupou espaço na imprensa como um modelo de união e atuação conjunta. Uma família negra mostrada como referencial social.

Além disso, sua música é plena de elementos de origem afro-brasileira, não só na musicalidade, como nas letras. Portanto, artisticamente ele se mostrou consciente de seu papel como negro atuante na cultura brasileira. Outra coisa que mudou muito nos último anos: o ideal de brasilidade. A alegria, a irreverência, a ideia de que somos escolhidos caiu por terra, diante da nossa clara derrocada política, económica, social e simbólica dos tempos recentes. Assistir ao nosso filme é um exercício de nostalgia e saudosismo, ao percebermos que aquele país não existe mais e nos perguntarmos: onde foi que ele perdeu-se?

O seu filme é uma mescla de doçura e irreverência como raro se vê em nossa veia documental. De que maneira o Jair do filme vai além da picardia e do mel? Onde a singularidade musical dele se impõe nessa travessia?

O Jair é sempre lembrado pela sua alegria, a sua anarquia, o seu o sorriso eterno, que é quase uma utopia existencial. Mas o filme faz questão de mostrar a sua genialidade musical, que vai além dessa imagem de felicidade. Ele foi um dos maiores, talvez o maior intérprete desse oceano infindável e riquíssimo que é a música brasileira, numa época em que pode se dizer que ela atingiu seu auge em excelência e popularidade.

Que procedimentos guiaram-te na construção de uma narrativa que parece se preocupar em nos levar a perceber o heroísmo pícaro (malandro) de Jair?

A minha diretriz dramática sempre foi articular uma obra que dialogasse com o espírito da personagem. Ou seja, um filme dinâmico, envolvente, que estivesse sempre narrando algo, pela música, depoimento ou imagem e que, para tanto, tivesse diferentes instâncias narrativas. Daí que surgiu a ideia de colocar o Jair Oliveira (filho de Jair Rodrigues) como um dos narradores da história, fazendo o papel do pai. É uma opção polémica, pela sua artificialidade, mas topei o desafio, em prol da multiplicidade narrativa e, além disso, sua presença reforça a afetividade entre Jair Rodrigues e sua família, um dos eixos do filme.

Que lugar a dramaturgia documental brasileira ocupa ou pode ocupar hoje num tempo de streamings?

Creio que o documentário achou o seu lugar ideal. Claro, a experiência de ver um documentário na tela grande é fantástica, principalmente um documentário musical, com a força de um 5.1 bombando na tela e nas caixas de som. Mas vejo muitas pessoas que nunca iam ao cinema para ver um documentário agora assistindo a vários na Netflix ou Globoplay. O Festival In-Edit de filmes musicais foi um sucesso. Muita gente acompanhou a programação pelo streaming. Volto a frisar: alguns documentários devem continuar a ser exibidos em tela grande, mas o streaming abriu as portas para muitos filmes que não conseguiriam ser lançados no cinema ou, mesmo lançados, ficariam duas semanas e sairiam de cartaz. Creio que essa relação documentários / streaming veio para ficar.

Que legado o Jair deixa para a luta da inclusão dos artistas negros no Brasil e para o samba como lugar de resistência?

Ele ocupou lugares de destaque da media onde antes não havia negros. Fez uma revolução silenciosa nessa ocupação de espaços. E, claro, trouxe o samba consigo, como uma grande manifestação expressiva e artística e não meramente um produto de consumo rápido. E vale lembrar que Jair não só cantou samba, mas vários outros géneros, como sertanejo, modinhas, boleros entre outros. Mas é no samba que ele se imortalizou. O samba popular encontrou em Jair a sua mais alta expressão. Além disso, o Jair era um pouco uma enciclopédia do samba, com um repertório que ia de Donga até Rappin Hood. Tinha gosto tanto pelos clássicos como pelas novidades. O seu recorte era o mais amplo possível. Ao mesmo tempo que resgatava antigos sucessos, descobria novos talentos, pois tinha um olhar panorâmico para a história do samba.

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