É de Rosa, é de Ésquilo, é do Real: Rodrigo Siqueira e a estética híbrida da memória

Foto por Nino Andres

(Fotos: Divulgação)


Entre as percepções da condição humana que instigam a inquieta (e inquietante) obra do cineasta mineiro Rodrigo Siqueira, uma das mais belas… como motor de arranque de planos avessos à domesticação narrativa do cinema nosso de todo dia… é a ideia de que “em uma mesma pessoa há o autor, o personagem e o ator”. Esta é a forma como o realizador mapeia o seu novo projeto, hoje em andamento, que entende como uma extensão das buscas de sentidos, de sensações, de sentimentos e de narrativas que começou em “Terra Deu, Terra Come”, melhor filme brasileiro no festival É Tudo Verdade, em 2010.

Ali, perfumados pelo aroma amadeirado da prosa de João Guimarães Rosa (um ourives da língua, aclamado mundialmente por “Grande Sertão: Veredas” e “Sagarana”), acompanhamos o rito de auto-mise-em-scène de Pedro de Almeida, garimpeiro de 81 anos. Na longa-metragem, Seu Pedro comanda, como mestre de cerimónias, o velório, o cortejo fúnebre e o enterro de João Batista, morto aos 120 anos, num ritual em que vêm à tona as raízes africanas de Minas Gerais. Na sequência veio “Orestes” (2015). Nela, faz uma adaptação da tragédia grega de Ésquilo para a realidade brasileira. Com um júri simulado e uma série de psicodramas, a fita liga dois momentos  da  nossa  história: a  ditadura  militar  dos  anos  1970  e  o presente, da violência policial. Nesta segunda, às 19h do Brasil e à 0h de Lisboa, Siqueira vai esmiuçar sua estética no simpósio documental Na Real_Virtual, sob a sabatina dos seus curadores: o crítico Carlos Alberto Mattos e o cineasta Bebeto Abrantes. Para saber do evento, basta consultar https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. A série de conversas começou no dia 20 de julho e estas seguem até sexta-feira, mobilizando gigantes do setor nas Américas, como Petra Costa, Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Joel Pizzini, Carlos Nader, Belisario Franca, Gabriel Mascaro e Walter Carvalho. “Por um cinema híbrido” é o título do bate-papo com Siqueira. Nesta entrevista ao C7nema, o cineasta fala desse hibridismo de modo lúdico.

Como foi o processo de construção do que seria a auto-mise-en-scène de Seu Pedro, eixo de “Terra Deu, Terra Come”?

Isso deu-se de várias formas. Mas procurei potencializar o que Pedro me apresentava, a cada narrativa que ele me trazia, procurava dar espaço para ele ampliar sua abordagem, provocava para que ele pudesse acrescentar dados novos, mas, sobretudo, para que pudesse exercer variações. Eu pedia para que ele repetisse algumas histórias pelo prazer de vê-lo narrar e dar um novo jeito ao que contava. Pedro falava com o corpo, era um performer espontâneo e as situações foram acontecendo. Aos poucos esse narrar com o corpo ganhava forma e a fala deixava de ser apenas palavra. Ganhava vida.

“Orestes” parece uma arqueologia da repressão. Mas qual é o Brasil reprimido, o da ditadura, que se desnuda ali. Que ecos de um Brasil de ontem esse processo revelou?

Se formos olhar com essa atenção arqueológica, talvez possamos remeter à formação do Brasil. Quando houve a independência, em 1822, o Brasil invalidou todas as leis que eram do Império. E a formação do arcabouço legal, que veio nos anos seguintes, estruturou muito do que temos de autoritário no Estado brasileiro até hoje, notadamente no aparato policial. Com a independência, as leis que permitiam o açoite foram invalidadas, mas, logo em 1830, com o nosso primeiro código penal, criou-se a possibilidade de a polícia castigar fisicamente as pessoas sem ter que encarcerar. Esse código prevaleceu até cerca de 1890, mas criou-se aí a autorização para tortura a céu aberto, que vigora na prática das nossas polícias até hoje. O tapa na cara é uma prática corrente, e tornou-se uma instituição vergonhosa das nossas polícias. E, claro, essa ação policial obedece à sua tradição de origem, uma polícia criada para reprimir escravizados e pobres, os “não proprietários” da sociedade brasileira.

Qual é o projeto atual do seu cinema?

Atualmente, estou terminando um filme que é um aprofundamento da pesquisa formal que comecei com o “Terra Deu, Terra Come” e prossegui no “Orestes”. Nesse documentário, trabalho, entre outros pontos, a condição de ator que existe nas pessoas que filmo. Por outro lado, também sigo com o procedimento narrativo da “coisa dentro da coisa”, digamos assim. Fiz um filme com pessoas que são a um só tempo autores, personagens e performers das suas próprias histórias.

 Que mitos – da Literatura, do Teatro e do próprio documentário – servem de Estrela de Belém ao seu cinema?

Guimarães Rosa e Drummond; Pirandello; Jean Rouch e Eduardo Coutinho; no cinema de ficção, passo por fases, e, agora, ando me envolvendo afetivamente com o John Cassavetes e a Gena Rowlands.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/c6k0

Últimas