Joel Pizzini, o artesão do ‘filme-ensaio’ transforma memória em poema

Foto por Bárbara Bergamaschi

(Fotos: Divulgação)


Indicado aos Ursos da Berlinale, em 2015, com “Mar de Fogo”, sobre o so cineasta Mario Peixoto (1908-1992), Joel Pizzini tem o seu nome (e refinamento) associado ao legado dos grandes artistas, de expressões distintas, que documentou, como é o caso do diretor teatral Zbigniew Ziembinski (1908-1978), alvo do seu atual projeto.

Ao longo das últimas três décadas, debruçou-se em retratos sobre realizadores como Peixoto, Glauber Rocha (“Anabazys”, feito com Paloma Rocha) e Rogério Sganzerla (“Mr. Sganzerla – Signos de Luz”); sobre pintores como De Chirico (“Enigma de um Dia”); sobre o poeta Manoel de Barros (“Caramujo-Flor”) e sobre o cantor Ney Matogrosso (“Olho Nu”). No contacto com todos esses transgressores, Pizzini criou uma estética arqueológica particularíssima, algo hoje chamado de “filme-ensaio”, que viveu o seu apogeu em “500 Almas” (2004), sobre a luta dos povos indígenas Guatós para não terem sua identidade apagada. Nesta quarta, às 19h (do Brasil, 0h de Lisboa), ele fala sobre seus dispositivos narrativos e suas descobertas no seminário Na Real_Virtual, que acontece online às segundas, quartas e sextas, até o dia 14.

O evento é organizado pelo crítico Carlos Aberto Mattos e pelo documentarista Bebeto Abrantes, produzido por Márcio Blanco (da Imaginário Digital), reunindo a nata da não ficção do audiovisual brasileiro, como Petra Costa, Maria Augusta Ramos, Gabriel Mascaro, Emílio Domingos, João Moreia Salles, Carlos Nader, Walter Carvalho, Rodrigo Siqueira, Cao Guimarães, Belisario Franca e Marcelo Gomes.   Na entrevista a seguir, Pizzini explica ao C7nema como opera a dimensão imagética de sua narrativa ensaística.


Seu primeiro filme de culto, “Caramujo-Flor”, é de 1988. São 32 anos… 32 anos de uma carreira pautada pela memória e pelas experiências de linguagem, que vai de indígenas ao legado audiovisual de Glauber Rocha, passando pelas performances do cantor Ney Matogrosso e a cosmogonia do realizador Rogério Sganzerla. Mas qual é o fio de memória? Qual é o fio político das suas escolhas de tema e de linguagem?

As escolhas das personagens centrais refletem a minha arqueologia afetiva, isso a começar por Mario Peixoto, realizador que me siderou com ‘Limite’, a ponto de procurá-lo em seu refúgio na cidade de Angra dos Reis. Tinha visto pela primeira vez, ao sair da universidade, um filme não sobre poesia, mas poético em si. Depois veio o poeta Manoel de Barros, que me deu um nó, avalizando o filme de um jovem realizador estreante, “sobre” a poesia dele, sem sua presença biográfica. E graças a esse ‘não’, a ele não estar lá, encontrei soluções de linguagem, que me tiraram do chão e me lançaram de prima para o campo da experimentação.

Além de Ney, Sganzerla, e Glauber, veio na minha obra também o pintor Iberê Camargo. Ele ensinou para mim que “a gente não sabe o que procura, mas reconhece quando encontra”. Eu vejo-me com um “anarcoarquivista”, “retocando o real com o real”, como sinalizou Robert Bresson, que mesmo sem ter feito documentários, oferece aforismos excitantes que nos fazem pensar sobre as estratégias de “dirigir-se” e instigar a realidade aparente. Como curador da restauração da obra de Glauber, constatei a dimensão política e material da memória, que contém uma proteína potente que (re-)tratada pode reatar pontes e fios soltos. E, neste momento de pandemia, é essencial ressignificar os nosso projetos de vida-arte.  O próprio Glauber sustentava que o político e o poético são demais para uma só pessoa, mas a sina de todo artista é atingir esse delicado equilíbrio.

500 Almas”, alvo do debate desta quarta no simpósio Na Real_Virtual, é um exercício de preservação de um povo. Tem antropologia e tem experimentação formal em igual medida. Mas o que afasta o filme de um registro etnográfico? E o que aproxima o filme de um registro etnográfico? 

Optei por um filme etno-poético. Algo que transcende o universo etnográfico que,  por sua vez, implica em cuidados inerentes à sua finalidade.  Procurei, contudo, a assessoria do arqueólogo Jorge Eremites, estudioso do povo Guató, e da linguista Adair Palácio. Ela participou ativamente da luta de reconhecimento da etnia e iniciou a escrita de um dicionário do idioma Guató, que foi recentemente atualizado por linguistas da Universidade Federal Fluminense, a UFF.  A partir, então, de critérios étnicos, decidi fazer mais do que um filme “sobre” os Guató, e realizar um filme “sob”, ou através, desta cultura/etnia singular, para refletir sobre o enigma da memória, a importância da língua e da terra para a sobrevivência de uma cultura. A natureza poética do filme instaurou-se desde o aspecto mitológico, a relação com a água, a sonoridade gotejante da língua, como diz Manoel de Barros, e a carga ancestral que os guatós carregam e remontam a formação do Pantanal. Evitei uma aproximação idealizada, de registo impessoal desta cultura ameaçada que resiste teimosamente, atento sobretudo ao imaginário contido na poética dos gestos, aos silêncios, interditos e imobilidade, sem desconsiderar a inevitável transformação que abala, mas não extingue, todavia, os traços e pistas remotas que só o cinema é capaz de captar e recompor no discurso fílmico.  O atalho poético, neste caso, se contrapõe à mentalidade mórbida arraigada em certa tradição documental, que se conforma em colecionar e catalogar o mundo.

500 almas” é também um filme a erosão de uma população, não?

Através da saga dos Guató, dá para imaginar outros processos de esquecimento ou apagamento de culturas equivalentes, que lutam para preservar sua identidade por todo Brasil. Contei com o auxílio luxuoso do mestre Mário Carneiro, fotógrafo e artista plástico, que inspirou-se na luz dos pintores naturalistas e nas lições do Cinema Novo, para conceituar a fotografia do filme. Tivemos o privilégio de filmar em Super 16mm e empreender uma pesquisa prévia no território Guató, o que conferiu um maior rigor na documentação do raro conteúdo antropológico e ao mesmo tempo, um olhar pictórico que primou por descolar as figuras do fundo e contornar os limites da cor verde, imprimindo à longa uma dimensão quase escultural. Elegi como protagonistas os falantes do idioma, por meio do trançado proposto pela montadora Idê Lacreta, e pela regência de Lìvio Tragtenberg, que incorporou a língua tonal dos indígenas como valor musical na trilha sonora. Isso atribuiu a ‘500 Almas’ características de um filme-ensaio, que nos lança a indagações artísticas e existenciais. Como bem definiu o (crítico) Carlinhos Mattos, o ensaio é uma forma de pergunta que gera outras perguntas.

A palavra “ensaio” é o título e a bússola do seu debate. Mas o que essa palavra representa para o documentário como potência e como prática?

Representa a meu ver, uma ruptura. A nomeação filme-ensaio destila esse ranço científico que a palavra documentário sugere, sendo questionada desde os anos 1930, primeiro pelo cineasta Alberto Cavalcanti. Ele afirmava que tal classificação cheirava a ‘poeira e tédio’. Há uma nomenclatura em torno do fazer documental, que induz a um fazer documental previsível, como se nesta prática fosse inevitável recorrer-se ao ‘depoimento’, ao ‘registo’, ao ‘resgate’, ‘a imagem de cobertura’.  Enfim, para desburocratizar a mente e romper com esquemas narrativos, é preciso libertar a imaginação, sem precisar necessariamente comprovar, perseguir o consensual ou esconder o esforço. O que importa ao final, é a experiência estética, a ficha técnica, vem depois.

Quais são os seus passos agora, em projetos? Qual é o filme da vez? Qual é o cinema que sobrou?   

Aguardo uma fresta nas grades também para o lançamento de “Rio da Dúvida”. Estávamos no início da pós do “Zimba”, “filme-ensaio” sob o diretor teatral polaco radicado no Brasil Zbigniew Ziembinski (1908-1978), que aguarda a poeira baixar pro alinhavo final. Tem ainda planos dessa longa para filmar no ano que vem. Tenho ‘Depois do Trem’, que recria a obra do poeta-engenheiro Joaquim Cardozo, mestre do poeta João Cabral e calculista de Oscar Niemeyer, que é protagonizado por Emanuel Cavalcanti, Aramis Trindade e Bárbara Vida. Engatados ainda estão os projetos ‘Coisal’ (revisitando Manoel de Barros) e ‘Cav’s Movie’, sobre o percurso experimental de Alberto Cavalcanti. Com o ‘novo normal’ resta reinventar a forma de filmar, por ora na moita, refletindo sobre essa situação limite, produzindo novos sentidos para voos essenciais. Sobram a sobras, imagens interditadas, perdidas no tempo, que recicladas podem surpreender e desconcertar.

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