The OA foi cancelado pela Netflix após duas temporadas

Há uns anos atrás, Brit Marling estaria a trabalhar em dois projetos para a Goldman Sachs, quando, uma vez, ouviu um ruído. Uma voz, será? Detrás do espelho. Talvez o seu outro “eu”, numa dimensão “eco”, a chamar-lhe para o mundo da sétima arte e da televisão.
Surgiu então uma curta, feita à pressa, conforme manda o regulamento do 48 Hour Film Festival, festival de curtas-metragens cujo objetivo é reunir uma equipa e realizar uma curta-metragem em apenas dois dias. A atriz e cineasta achou o produto final aquém, mas o bicho ficou a germinar.
(A parte de ter ouvido um ruído será imaginação deste escritor, mas quem diz que não aconteceu?)
—-Spoilers abaixo—-
I’m not mentally ill, but I think logic is overrated.

A noção de realidades paralelas estava já na sua cabeça. Another Earth de 2011, a sua primeira colaboração numa longa-metragem, apontava já precisamente na direção desta segunda temporada de The OA – a obra falava da descoberta de uma “Terra duplicada” no sistema solar.
The OA – Parte II parte para o universo conforme nós o conhecemos em dois, mas em teoria sabemos já que há N universos, um número impreciso de cenários alternativos, que, ao mesmo tempo que une pontas soltas deixadas na primeira iteração, permite dar aos seus autores (Marling e Zal Batmanglij) infinitas possibilidades para futuras temporadas com esta “expansão”. De um lado, temos o universo que conhecemos no primeiro tomo; no outro, temos um universo paralelo, onde começa a narrativa. Um desaparecimento (também aqui um efeito espelho ao reaparecimento de The OA no início da série) leva uma mãe a procurar o detetive Karim Washington (um relativamente desconhecido Kingsley Ben-Adir, a espalhar o seu charme no arquétipo de espectador céptico), um ex-agente do FBI que agora aceita trabalhos em regime freelance.

Bria Vinaite em Florida Project e The OA
Se Twin Peaks for Cinema, isto também tem que ser
Pouco tempo depois, estamos prontos para entrar na toca do coelho, com direito a um videojogo que atrai um conjunto de jovens para uma casa que em si é um puzzle, um polvo com poderes telepáticos, um “espelho mágico” e outras pequenas particularidades que tornam esta a melhor coleção de ficção científica desde que David Lynch decidiu ressuscitar Twin Peaks, e inserir também ele mais das suas jogadas oníricas clássicas, entre o sonho e a existência de um universo paralelo, que é visível em sonhos e dejá vu‘s.
É uma experiência alucinante e altamente cinematográfica. Se a série louca mas também bem demarcada de Lynch (com esta a acabar quase sempre em “concertos” no bar da pequena cidade, como foi o caso de Sharon van Etten, o elo de ligação entre as duas obras) mereceu tal “elevação”, também The OA merece ser visto por esse prisma. Marling e Batmanglij não trabalham estes episódios a metro, isto é, o projeto foi primeiro desenvolvido como um todo, como um filme por editar, e depois sim, partido e partilhado com uma dupla de realizadores: Andrew Haigh (Weekend, 45 Years) que assina dois episódios, e Anna Rose Holmer que assina o penúltimo. Todos os restantes são da autoria de Batmanglij. Esse é, aliás, um dos bónus do streaming: estar livre das pressões de um canal televisivo, que precisa de preencher um bloco específico de tempo. O maior exemplo disso deu-se quando um dos episódios da primeira temporada tinha apenas meia hora. Dirão os puristas: então, mas para ser Cnema, tem o projeto todo que ter sido assinado pelo mesmo conjunto de mãos…

Se há algo que separa a última iteração Twin Peaks de The OA, é que este último não receia baixar a guarda da sentimentalidade, e poderíamos até, com todo o respeito para o opus de 2017, dar a facadinha que este, nas suas 8 horas, se torna um ensaio mais livre de gordura que as 18 horas do “filme” de Lynch.
A emoção aqui redobrada, arrisca-se novamente (e bem!) a cair num poço do ridículo – quantos não gozaram afinal logo com os cinco movimentos, a coreografia desenvolvida por Ryan Heffington (que colaborou com Sia, Sigur Ros e Arcade Fire no passado)? Imagine-se agora, num momento crucial, ver a mesma dança interpretada por caixas robóticas… Ou um polvo médium a falar. Uma médium humana a querer tapar todos os espelhos da casa, porque o nosso gangue entrou com um espelho partido. E assim sucessivamente. É, aliás, este compromisso fiel ao desenho, imune a pressões externas, sem medo do ridículo, que une Lynch a Brit e Zal.

Ambas as obras tornam-se experiências sensoriais, que implicam a disponibilidade do espectador em querer entrar na toca, e assim aceitar as regras do jogo que foram aqui desenhadas.
Pontas atadas, mistério humano infindável (ainda mais spoilers)
É no último episódio que percebemos o grande propósito do Dr. Percy/Hap (Jason Isaacs): um jardim humano, cujos corpos dos nossos protagonistas funcionarão como um mapa interdimensional. Ao comer uma pétala das flores que brotam dos seus cérebros, permite-o assim prever a dimensão para a qual vai saltar de seguida. (Yup!) Foi também graças a sessões com o Dr. Percy que o jogo de realidade aumentada foi desenvolvido, um jogo que permitia, no seu nível mais elevado, “saltar”.
O que aconteceu a Michelle? Este MacGuffin (objetivo que força a narrativa andar em frente) acaba também por ter uma ponta atada, após a certo ponto não parecer mais do que o que o nome usado mais notavelmente por Alfred Hitchcock implicava. Após termos visto o vídeo dela a cair, provavelmente para outra dimensão, é Karim que vê Buck/Michelle no cenário das filmagens (alternativas? Brit Marling e Jason Isaacs não são casados no nosso universo…) da série, e convence-@ a subir as escadas, e o toque pode implicar um acordar para a sua consciência na dimensão que saltou originalmente. É o toque do beijo trocado entre OA e Dr. Roberts/Homer que o faz também despertar uns minutos antes…

A obra parece então sugerir que, não só os sonhos, os dejá vu’s, e médiuns assustadiças são capazes de ativar consciências, mas o simples toque humano pode despertar memórias de outra dimensão. Que a morte nesta dimensão pode implicar uma mera transferência da alma. Será a nossa noção clássica de vidas passadas, afinal uma janela sim para dimensões paralelas, onde o tempo linear acaba por ser algo secundário? Sabemos que a dimensão adicionada agora decorre num futuro à dimensão de quando primeiro conhecemos OA, sim.
Numa das sequências mais “WTF” de toda a série, a personagem de Emory Cohen, nem é Homer, nem Dr. Roberts, mas sim um explorador de um tempo remoto que se dirige a uma comerciante de peles humanas (!), para procurar uma pessoa perdida. Aparenta ser um sonho, mas lá está, sendo o sonho uma mera porta de entrada para outras nossas existências, está aqui então desenhada uma outra dimensão.
The OA resiste assim a criticismos fáceis, porque nos coloca questões que, desconfiamos, nunca iremos ter a resposta completa, daí exercendo um fascínio vitalício e um quebra-cabeças à altura das suas óbvias competências no campo audiovisual.

