O que pode acontecer quando se unem o terrível e corrosivo humor inglês com uma trajetória de dois serial killer inconsequentes que matam pessoas inocentes em parques de campismo sem maiores razões? Possibilidade 1: um filme cheio de humor muito negro e cenas de gore explícito; hipótese 2: uma obra cinematograficamente estilosa que usa do bizarro para fazer crítica social.
Certamente as duas alternativas, entre outras, são verdadeiras, num conceito que não é estranho, por exemplo, a Assassinos Natos, o brutal (e superior) filme de Oliver Stone onde um casal saía a matar pessoas “medíocres”. Mas, diferente daquela obra, onde Nick e Mallory Knox davam uma dimensão existencial e política ao que faziam, os assassinos do realizador inglês Ben Wheatley não pretendem qualquer coisa de mais grandioso do que superar com seus atos os seus enormes complexos de inferioridade e as suas mais miseráveis frustrações pessoais.
Os argumentistas de Assassinos de Férias são bem capazes de ter estudado algum manual freudiano de neurose quotidiana antes de compor o perfil das suas vítimas. Conforme é informado através do humor cínico do filme, os parques de campismo ingleses, com atrações turísticas como o “Museu do Lápis”, estão repleto de tipos facilmente identificáveis na sua exasperante mediocridade. É justamente pelo fato de serem estereótipos do politicamente incorreto (um homem que atira embalagens de papel no chão depois de comer) ou correto (outro que reclama dos dejetos do cão abandonados na relva) que eles TÊM de morrer…
Wheatley teve sua terceira longa-metragem apresentada na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes no ano passado e fez um longo e bem-sucedido trajeto por alguns dos melhores festivais de cinema do mundo – tendo a sua antestreia nacional no Indie Lisboa. Depois de Uma Lista a Abater, ele segue a ser um cineasta independente em alta conta entre os críticos. Seu novo trabalho, A Field in England, passou há dias atrás por Karlovy Vary (ver crítica) e foi lançado há duas semanas nos cinemas ingleses.
Assassinatos semanais
O filme foi escrito pelos atores principais, Steve Oram e Alice Lowe. Ambos são comediantes e já trabalharam juntos algumas vezes nos últimos anos – especialmente no teatro e na televisão. Oram já participou de algumas séries da BBC, para além de realizar curtas-metragens. A misturar horror com humor, a série Garth Marenghi é um dos principais trabalhos pelo qual é conhecida em Inglaterra a atriz Alice Lowe.
A atriz revelou a ComingSoon que o projeto foi concebido para o palco e, posteriormente, teria uma adaptação para a TV. Mas, ironizou, os produtores televisivos pensaram que seria complicado incluir na programação uma série que dependeria de assassinatos todas as semanas… Já Wheatley tem uma versão bastante peculiar de relaxamento, afirmando que entrou neste projeto porque queria algo mais “leve” depois de Uma Lista a Abater. Faz pensar sobre com que se ocupa ele durante as férias…

