Seria uma simples operação de execução: dois membros do movimento de resistência à ocupação alemã da Bielorrússia, durante a 2ª Guerra Mundial, levam um compatriota, acusado de traição, para ser executado no interior de uma floresta. As coisas não correm, no entanto, conforme o esperado – baralhando-se os papéis e levando os protagonistas a lidarem com suas memórias e sua identidade num contexto de mutação constante por causa da guerra.
Este é o início da segunda obra de ficção de Sergei Loznitsa, um prestigiado realizador de documentários com 11 títulos já produzidos nesta área. Em 2010, causou sensação no Festival de Cannes com o denso My Joy, um retrato impressionante sobre a União Soviética pós-comunista.
Dois anos depois o cineasta voltou à seleção oficial do certame francês para colher novamente elogios. Para o Le Monde, “é um filme de onde saímos num estado de transe“; já o também francês Positif, destacou que se trata de “uma obra lenta e poderosa, onde tudo converge para transformar a história de base sombria, atolada no meio da guerra e da culpa, numa metáfora cristalina“. Já para o inglês The Guardian, “foi um dos melhores filmes russos a estrear nas salas britânicas na última década“.
O colapso do humanismo
A história é uma adaptação de um livro homónimo de Vasili Bykov (de 1989), um dos maiores nomes da literatura da ex-União Soviética e o mais importante escritor de uma das suas ex-repúblicas, a Bielorrússia. A maioria dos seus livros, muitos a gozar de prestígio também no Ocidente, abordava a guerra de uma forma muito pessoal, com poucos personagens, duras escolhas morais e a refletir a dramática crise do humanismo após todas as catástrofes ocorridas no século XX.
E com essa visão está de acordo Sergei Loznitsa. “Parece-me que, tendo conta as experiências da humanidade no século XX, é apropriado falar do colapso do humanismo, como tem sido convencionalmente tratado na arte e na literatura. Depois de todas as guerras e revoluções, tudo que é didático deve ser rejeitado. A arte não tem o direito de pregar, ninguém tem o direito de o fazer. A arte não torna as pessoas melhores, nem as torna mais nobres“, disse.
As florestas de Letónia e as casas da Bielorrússia
As coisas mudaram na paisagem da Bielorrússia, cenário da história de Bykov, desde a 2ª Guerra Mundial e o realizador, após muitas viagens pelo interior do país, acabou por meter-se numa floresta da Letónia (fronteira norte) para realizar o filme. “A região mudou significativamente nos últimos 50 anos e havia sinais modernos em todo o lado: casas pintadas em verde choque e cor-de-rosa, postes de eletricidade, edifícios industriais. Encontrei o que estava à procura para lá da fonteira, na Letónia, onde se podia montar a câmara em qualquer lado e rodá-la 360 graus sem tropeçar em marcas da vida contemporânea”, observou.
Outro trabalho interessante foi o relativo ao design. De acordo com o cineasta, “a casa de Sushenya foi toda construída do zero, assim como os interiores. O nosso designer trouxe muitos artefactos da Bielorrússia por porque o interior das quintas de lá é muito deferente do das casas letãs. Analisamos milhares de fotografias e recriamos os interiores meticulosamente. Queira que as personagens ‘vivessem’ nesses espaços e não que aí atuassem“.
Conexão romena
Por falar em técnicos e suas estratégias, o ex-documentarista Loznitsa foi à Roménia buscar um diretor de fotografia capaz de trabalhar com a câmara na mão e o mínimo de luz. Trata-se de Oleg Mutu, colaborador de Christian Mungiu e que havia impressionado o cineasta por seu trabalho em “4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias”. “Quando vi esse filme pensei no bom que seria poder encontrar alguém que trabalhasse da mesma forma. E depois descobrimos que Oleg nasceu na Moldávia e fala russo fluentemente. Nos encontramos em Chisinau e falamos horas sobre literatura, filosofia e arte. Soube nesse instante que aquele era o homem o qual eu andava à procura“.

