Os melhores festivais cinema do mundo (com o de Cannes à cabeça) já o adotaram: as quatro longa-metragens que compõem a sua carreira, iniciada em 2002, já percorreram os melhores itinerários do universo cinematográfico. Não sem estardalhaço: as suas opções estéticas/temáticas frequentemente causam indignação e, não uma única vez, assobios. Estes também acompanharam Post Tenebras Lux, que agora estreia em Portugal e que, em comparação com os dois primeiros, é até bastante bem comportado.
A fazer um cinema sem maiores concessões, Reygadas mergulha fundo em meditativas perambulações cujas trajetórias humanas são marcadas pela presença esmagadora do cosmos e onde os atavismos burgueses (principalmente das elites rurais) conseguem apenas temporariamente injetar vida, não sem perversidade, num destino que lhes escapa completamente. Para os que querem se aventurar no estranhíssimo mundo do cineasta, repleto de paisagens, sexo, animais e crianças, segue abaixo o convite à sua filmografia, exclusiva para intrépidos…
“Post Tenebras Lux” (2012)
Naquele que é o seu exercício estético mais elaborado, Reygadas centra a sua história, contada de uma forma nada convencional, no casal da elite rural mexicana vividos por Adolfo Jiménez Castro e Nathalia Acevedo. Ambos vivem os paradigmas de todas as relações conjugais duradouras – marcadas por desgaste e discussões, tentativas de diversificação (a cena do swing em França) e onde os dois filhos pequenos assumem o protagonismo.
Mas isso é só a ponta do iceberg: as impossibilidades dos relacionamentos monogâmicos, recorrentes em outros dos seus filmes, junta-se a errática e crucial trajetória de um trabalhador braçal, conhecido apenas por Sete (Wilebaldo Torres), que é apresentado a destruir árvores e reencontrado a seguir numa reunião de Alcóolicos Anónimos, onde ele tenta reconstruir sua vida. Cenas surrealistas (com a aparição do próprio diabo) e uma história contada de forma quase aleatória garantem as surpresas. Ou não…
Sobre as dificuldades para entender a obra, aliás, Carlos Reygadas sublinhou numa entrevista: “o filme não tem que ser interpretado. As coisas existem e estão aí. Eu realmente respeito o espectador e não quero dizer-lhe o que fazer e no que pensar. Esta não é a minha tarefa“. Como de costume, controvérsias não faltaram, uma delas envolvendo uma cena extremamente agressiva de agressão a um cão. Isso corre fora de campo, mas o impacte não é menor por isso… E há nudez, claro, que como sempre não deixa de irritar uns tantos. Em Cannes se deu bem: o cineasta foi escolhido o Melhor Realizador da edição do ano passado.
“Luz Silenciosa” (2007)
O mais “civilizado” e, a preferir-se, o mais palatável ao gosto burguês das obras do cineasta: sem sexo e agressões a animais, ninguém se queixou deste belo relato das misérias terrestres esmagadas pela beleza da ordem do infinito. Aqui a ordem social em constrangimento pelas paixões humanas é abordada através de uma comunidade fechada, explorando uma típica situação de adultério, tudo enquadrado pelo ciclo de vida e morte e onde belíssimas cenas de contemplação do céu inicial e encerram a narrativa.
Um OVNI na filmografia do realizador também no sentido do extrato populacional que resolveu representar: a comunidade menonita, descendentes de canadianos e adeptos de uma conservadora confissão anabatista que vivem no Norte do México, em Chihuahua, na fronteira com os Estados Unidos. Fez parte da seleção oficial de Cannes em 2007, vencendo o segundo prémio mais importante, o do Júri.
“Batalha no Céu” (2005)
Sem dúvida o mais extremo dos experimentos de Reygadas, a narrar uma bizarra história de um casal que sequestra um bebé – segundo ele, algo comum no México – que morre acidentalmente. O sequestrador (Marcos Hernandez) envolve-se, ao mesmo tempo, com a filha adolescente do chefe (um general) que, por sua vez, prostitui-se por diversão. Inclui nudez com fartura e uma delirante peregrinação do protagonista remoído pela culpa e em busca de redenção. As polémicas foram acesas e envolveram, sobretudo, as cenas de sexo.
Sobre as confusões, disse ele: “Se pensarmos bem, o que há de tão ultrajante na nudez de uma mulher obesa? Há montes de imagens espantosas em outros filmes, como carros a voar e coisas do género. O que se encontra nos meus filmes são coisas do dia-a-dia: uma gasolineira, um caçador a matar um animal, pessoas a fazer amor. Eu não estou a tentar impressionar ninguém com essas imagens, elas fazem parte do contexto dos meus filmes”. Fez parte da seleção oficial de Cannes em 2005.
“Japón” (2002)
Extensa perambulação sobre uma paisagem rural mexicana (o estado de Hidalgo, 150 km a norte do México, de onde vinha parte da família do realizador), onde um homem que pretende o suicídio acaba envolvido numa espécie de êxtase místico ao mesmo tempo que desenvolve uma estranha ligação com uma senhora de idade. Pássaros sem cabeça, porcos em agonia e uma brutalíssima cena de sexo envolvendo uma anciã garantiram a polémica.
Aliás, Reygadas, brincava com uma cena do filme, um linchamento, quando se dirigia para mostrar à população local o resultado do seu trabalho – dizendo que esperava não ter o mesmo destino do seu personagem! O festival de Roterdão, sempre na vanguarda do cinema alternativo, foi o primeiro a descobri-lo e Japón circulou por lá fora de competição. Já em Cannes foi a primeira das suas quatro participações, recebendo o prémio para Melhor Realizador Estreante.

