Os Nossos Filhos: A arte não conseguiu igualar as atrocidades da vida

(Fotos: Divulgação)

Esta é a história verídica: Genvieve Lhermitte cumpre atualmente uma pena de prisão de 42 anos por ter assassinado, em 2007, seus cinco filhos numa localidade não muito longe de Bruxelas. Quem se interessar em pesquisar (ou lembrar) os contornos reais em torno dos crimes, pode facilmente verificar que dificilmente a arte conseguiria imitar a vida quando se visualizam as circunstâncias absolutamente brutais que envolveram este quíntuplo infanticídio.

O realizador belga Joachim Lafosse evitou dois caminhos que poderiam gerar um filme insuportável: o do melodrama explicativo e uma abordagem visualmente explícita. Felizmente, nem telenovela nem gore aparecem por aqui, mas sim uma reconstrução de um processo descendente (e puramente especulativo em relação aos acontecimentos verdadeiros) através da sucessão de cenas quotidianas.

Estas revelam a vida de Murielle (Emilie Dequenne), uma jovem ingénua e doce recém-casada com o marroquino Mounir (Tahar Rahim). O problema é que ele foi criado por um médico (Niels Arestrup) com o qual tem uma estranha relação e que acaba por exercer uma influência enorme sobre todos. Cada vez mais diminuída na sua posição, Murielle entra numa espiral decadente (a “perda da razão” do título original) culminando no terrível ato final – mostrado logo no início do filme.

Polémicas

Apesar desta abordagem sem sangue e com a tragédia a ser explorada através do recurso do fora de campo, a obra de Lafosse esteve envolta em polémica – com muitos críticos a acusarem o filme de racista – uma vez que todos os marroquinos que aparecem nele são retratados como pessoas capazes de venderem-se a si próprios por um visto belga. Além do mais, os sobreviventes do caso Lhermitte ficaram furiosos com Lafosse, acusando-o de ser um explorador e ameaçando-o com processos judiciais.

Emilie Dequenne, um dos grandes trunfos de Os Nossos Filhos e vencedora do prémio de melhor atriz na mostra A Certain Regard do Festival de Cannes por este filme, deu pela primeira vez nas vistas com outra personagem polémica e fragilizada em Le Fille de RER, de André Techiné, em 2009.

Ela declarou ao The Guardian que procurou todo o distanciamento possível das pessoas reais, evitando mesmo ler os noticiários da época sobre o caso. Segundo ela, a obra tem que ser vista como aquilo que é – ou seja, apenas um filme. “É sobre seres humanos e estes são complexos“, disse. Igual separação tratou a atriz de fazer em relação à sua própria vida – ela que também é mãe de dois filhos.

Lafosse deu nas vistas em 2006 quando entrou na competição principal de Veneza com seu terceiro filme, Nue Proprieté, que tinha Isabelle Huppert no papel principal. Niels Arestrup tem uma longa folha de serviços prestados – entre os quais duas nomeações recentes ao Cesar de Ator Secundário – em dois filmes de Jacques Audiard. Arestrup também entrou em Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg. Já Tahar Rahim teve seus grandes momentos em O Profeta, de Jacques Audiard, e a Águia da Nona Legião.

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