O Outro Lado do Coração: luto sem lágrimas

(Fotos: Divulgação)

Um título bizarro e uma estreia tardia é o destino português deste típico exemplar do cinema realista indie norte-americano – que valeu uma nomeação ao Oscar a Nicole Kidman em 2011. O que, do ponto de vista exclusivamente comercial, até se percebe: “Rabbit Hole” teve a menor bilheteira daquele ano entre os nomeados a um prémio importante pela Academia – conseguindo arrecadar mundialmente menos U$ 2 milhões do que seu baixo custo de U$ 5M.

Talvez a dificuldade venha da aridez do tratamento do tema. Kidman é Becca, uma dona-de-casa que tenta, junto ao marido Howie (Aaron Eckhart), reconstruir a sua vida oito meses depois do filho pequeno ter morrido. Longe de uma abordagem lamechas que facilitaria a vida dos produtores (incluindo Kidman, que selecionou pessoalmente o projeto para a sua produtora, Blossoms) na hora de vender o filme, o tratamento aqui dado por John Cameron Mitchell é típico do cinema alternativo.

Por outras palavras, a base do filme não é a ação, mas a evolução dos personagens – neste caso às voltas com um duríssimo processo de luto. E as consequências psicológicas e de toda a ordem pelo desaparecimento de um filho de quatro anos não são difíceis de adivinhar. No mais, o enquadramento geral é dado pela ideia das viagens intergalácticas de uma banda desenhada escrita pelo “vilão”– através dos “rabbits holes” que dão título ao filme.

A sombra do cisne

Nicole Kidman gostou da história mesmo antes de ter visto a encenação da peça de David-Lindsay Abaire que daria origem ao filme. Quem acabou por vê-la primeiro foi um produtor da Blossoms e só depois do dramaturgo já ter sido contratado para escrever o argumento é que a atriz veria uma versão australiana da peça. Curiosamente, a versão original desta tinha rendido um Tony à Cynthia Nixon, a Miranda de O Sexo e a Cidade.

Mitchell, por sua vez, tinha uma motivação pessoal para mudar radicalmente de rumo para a sua carreira (seus dois filmes anteriores eram comédias): o processo de luto vivido pela sua própria família quando morreu seu irmão de dez anos (quando ele tinha 14). Aaron Eckhart, por sua vez, foi outra escolha de Nicole. No elenco secundário, destaque ainda para a veterana Dianne Wiest e Sandra Oh (de Anatomia de Grey).

O enfoque realista gera filmes profundos, intensos, mas pouco afeitos às facilidades do gosto popular. Neste sentido, consagração mesmo só a da crítica (unânime ao reverenciar a obra) e dos prémios – à indicação de Kidman ao Oscar soma-se outra nos Globos (também para a atriz) mais quatro no Spirit Academy Awards – além dela inclui-se Mitchell, Eckardt e Lindsay Abaire (autor do guião). Para azar da atriz australiana, aquele foi o ano de Cisne Negro, com aquela performance que Natalie Portman nunca mais repetirá na vida e que abocanhou os prémios todos.

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