2011 – Um ano negro nas bilheteiras para o cinema português

(Fotos: Divulgação)

Fale-se o que se falar, diga-se o que disser, 2011 foi um ano bastante mau para o cinema e para as produções portuguesas na sua generalidade. E não há volta a dar, basta olhar para os resultados do box-office. E sim, vamos só falar de números, de dados objectivos, pois em termos de qualidade das produções, certamente cada um tem a sua opinião (mas também há limites). Vejamos.
 
Desde que o ICA (antigo ICAM) disponibiliza dados de exibição cinematográfica em Portugal, que remonta ao ano de 2004, nunca os filmes ou produções portuguesas foram tão pouco vistas. Até ao dia 25 de Dezembro deste ano, as 23 longas-metragens portuguesas que estrearam em sala representaram no total menos de 70 mil espectadores. A este valor há ainda acrescentar dados de filmes que estrearam em 2010 mas que continuaram em 2011 nas salas, como «José e Pilar» ou «Filme do Desassossego».
 
Espectadores que assistiram a produções portuguesas estreadas no ano em questão
 
  
 
Mas vamos pegar então nos tais 70 mil espectadores, aliás, 69.928 para ser mais concreto. Para terem uma ideia do que isto significa, este valor representa um decréscimo de espectadores em relação a 2010 na ordem dos 60%. Mais. Se todas produções portuguesas fossem um filme só, essa obra não chegaria nem de perto aos 40 filmes mais vistos este ano (mesmo com os valores dos filmes que estrearam em 2010 e continuaram nas salas em 2011). Pior, todos os filmes portugueses juntos foram menos vistos que «O Regresso de Johnny English» nos primeiros quatro dias de exibição ou que «A Saga Twilight: Amanhecer» em apenas dois dias. Ainda mais à lupa. Todos os filmes portugueses juntos (estreados em 2011) conseguiram menos que «Contraluz», «A Bela e o Paparazzo» em 2010, ou que «Second Life» em 2009. Podíamos ir por aqui fora, já que existem seis filmes portugueses desde 2004 que ultrapassaram os espectadores dos filmes citados.
 
As dez produções (longas-metragens) portuguesas mais vistas de 2004 a 2011 
 
 
Num ano em que os exemplos que vêm dos nossos vizinhos apontam em sentido contrário («Torrente 4» arrasou em Espanha e «Intouchables» bate recordes em França), Portugal continua a fugir do seu cinema. O problema da nossa crise aplicada ao cinema é ainda maior. O português não liga ao seu cinema e este tem falta de carisma onde sobra qualidade. Vamos agora a casos individuais…

O Caso Manoel de Oliveira

 
Em termos individuais, relativamente a cineastas, as coisas não melhoram significativamente. Vamos pegar no caso do cineasta português no activo mais famoso (e também aquele que mais filmes realizou desde 2004). O inevitável Manoel de Oliveira.
 
Oliveira estreou este ano «O Estranho Caso de Angélica» e conseguiu 2664 espectadores. Este é um valor ligeiramente superior (+ 8 pessoas) ao conseguido em 2006 por «O Espelho Mágico», mas inferior a todas as outras obras que o cineasta portuense estreou desde 2005, ano em que curiosamente conseguiu o seu maior sucesso com «O Quinto Império» (8.218 espectadores na altura). No total, e com seis filmes incluídos, Manoel de Oliveira levou aos cinemas 29.315 pessoas. Ou seja, conseguiu mais «A Saga Twilight: Amanhecer» no dia de estreia que Manoel de Oliveira em 6 anos…
Sim, bem sei, são dados incomparáveis, mas são usados propositadamente para se entender a dimensão do que é realmente o cinema português e neste caso específico, o que representa Manoel de Oliveira para o box-office nacional e para o público que paga um bilhete de cinema.
 
Manoel de Oliveira e os seus filmes nas bilheteiras em Portugal
 
 

Sangue do Meu Sangue

Segundo o ICA, o campeão do box-office português em 2011 é «Sangue do Meu Sangue» com 20.262. Como o filme ainda permanece em algumas salas, este valor vai subir ainda mais, não havendo qualquer obra portuguesa capaz de a bater em 2011. Escusado será dizer que não acreditamos que o filme chegue perto dos 56 mil portugueses, ficando assim a obra bastante distante de entrar sequer no top das 10 produções nacionais mais vistas desde 2004. 
 
Ainda assim, este acaba também por ser o melhor resultado de João Canijo no nosso box-office, acima de «Noite Escura», que em 2004 ultrapassou os 13 mil espectadores.
 
 As  produções (longas-metragens) portuguesas em 2011
 
 
E com todo o mérito que a obra tem, que tem, o seu resultado é fraco. O filme de Canijo merecia mais, muito mais. Veja-se que «Sangue do Meu Sangue» (e lá vou eu pegar em filmes bizarros para a comparação) foi menos visto em Portugal que «Agente Disfarçado 3 Tal Pai tal Filho» ( Sim, aquele filme que coloca Martin Lawrence pela sexagésima vez a vestir-se de mulher idosa)… É assim que se trata o cinema português? 
 
Como diria o meu colega José Pedro Lopes num artigo escrito sobre a fracassada estreia de «O Barão». «O público português não gosta de filmes portugueses. Pois, creio que os filmes portugueses é que não deviam gostar do público que os maltrata.»
 
Jorge Pereira 

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