Panorama – 5ª Mostra do Documentário Português : Novos Documentários

(Fotos: Divulgação)

No penúltimo dia da mostra, o foco cai na produção do ano passado, com 6 filmes, 5 curtas e uma longa, feitas o ano passado a precederem a sessão de encerramento, com dois filmes sobre um pós-Abril desiludido e amargo.

O dia começou com uma sessão com duas curtas sobre realidades africanas, a primeira sobre as populações refugiadas saaráuis, vítimas de uma guerra da independência, e a segunda sobre um programa de agricultura sustentável. O primeiro filme, “O Terceiro Olhar – Mais Além da Realidade”, é o resultado de um workshop de cinema onde foi pedido às mulheres refugiadas que contassem as suas histórias e exprimissem a sua opinião sobre o conflito em que se viam envolvidas. Infelizmente a montagem impediu que um filme que de certeza tinha recursos para fazer algo muito interessante se ficasse por um atabalhoado de imagens com uma conversa inane de um voluntário a acompanhar, ficando o trabalho de explicar o filme e as suas intenções para as legendas que apareceram no final do filme. O segundo, um documentário pouco arriscado, mas eficiente, onde se vê o resultado de um programa ambicioso e interessante, onde as comunidades são emancipadas e apoiadas na sua independência e auto-suficiência. Um filme a ver para todos os que se interessam por temas de sustentabilidade e de organização social. Talvez até um vislumbrar do que poderá ser o futuro.

A segunda sessão incluía três curtas: “Nocturnos”, “Cátia Sofia” e “Comboio”. O primeiro demasiado curto para poder mostrar a vida de alguns sem-abrigo que vivem num albergue de uma associação em Lisboa, ficando-se por uma muito breve investida para o que poderá ser um filme muito interessante. “Cátia Sofia” foca-se na rapariga com este nome que, com apenas 15 anos, se vê numa instituição legal onde aprende a ser cabeleireira. É um retrato de uma classe social desfavorecida e da juventude que dela faz parte, perdida entre o que quer fazer e as oportunidades que vão aparecendo. Outro documentário que seria interessante ver o acompanhamento anos mais tarde, para ver como tudo resultou. O terceiro filme “Comboio”, já tinha visto no doclisboa e na altura escrito uma crítica sobre ele.

A terceira sessão foi a de “Li Ké Terra”, filme premiado na última edição do doclisboa, e que, já na altura, não me deixou impressionado.

E finalmente chegou a sessão de encerramento, de novo se volta a Abril, de novo um filme com a participação de Robert Kramer (como a sessão de abertura), mas muito diferente em tom. Para estabelecer o tom, uma curta de Fernando Calhau, “Destruição”, uma experiência cinematográfica onde o cinema e a pintura se misturam e a tela do cinema vai ficando negra; como o ficou o pós-Abril em “Gestos e Fragmentos” de Alberto Seixas Santos: o recontar da revolução pós 25 de Novembro, do ponto de vista de um insider, Otelo, um outsider, Kramer, e um intelectual, Eduado Lourenço. Aqui a tela é cheia com as palavras dos três, enquanto tentam encontrar uma narrativa que consiga justificar o restabelecer de grande parte do status quo e o negrume (aqui assumindo comicamente uma faceta noir) da desilusão. É um filme triste, que contrasta com a euforia original dos primeiros dias e ideal para fechar a secção do festival dedicado a Abril.

João Miranda

 

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