Panorama – 5ª Mostra do Documentário Português : Algumas curtas-metragens

(Fotos: Divulgação)
Para começar o último fim-de-semana do Panorama, uma sessão com 6 curtas de jovens realizadores. Curtas de estilos e temas muito diversos, todas feitas no ano que passou.
A sessão começou com “Diário” de Mónica Baptista, uma série de fotografias organizadas sequencialmente que registam um período da vida da realizadora. Com apenas 22 minutos e sem qualquer tipo de texto, o filme consegue ser um retrato de uma Lisboa moderna, alimentada pelas migrações das populações rurais para a cidade, da construção da identidade da juventude e da mercantilização dos seus tempos livres, do prazer de viajar e uma reflexão sobre a fotografia e o cinema (a sequência das fotografias avançava ou retrocedia acompanhada do som de uma máquina de edição) como tecnologias de documentação e registo de uma subjectividade inerente ao ponto de vista. Uma boa ideia bem concretizada.
Seguiu-se “Unnamed # Estou com Sono”, de Salomé Lamas, uma construção transgeracional sobre o cinema e os conceitos que este nos permite explorar, a partir de uma conversa entre mãe e filha sobre as experiências cinematográficas da primeira que incluíam a segunda, realizadora do filme. Infelizmente há uma não participação da parte da mãe, que faz com que a conversa inicial, que antecede alguns fragmentos dessas suas experiências, se torne um exercício incómodo e menos proveitoso.
O terceiro filme, “A Banana do Pico” de Luís Bicudo, é o registo familiar de uma família açoriana e a sua relação com a produção da banana. É um filme intimista e muito pessoal, conseguindo, no entanto, explorar as consequências do desenvolvimento do mercado da comida global na economia da ilha e da produção da banana em específico na economia global. O carinho do realizador pela família e pelo tema é visível e contagiante, permitindo ignorar qualquer limitação técnica que o filme possa ter.
“Fuera de Cuadro” de Márcio Laranjeira, documenta também uma relação familiar, neste caso de uma mãe pintora com o seu filho homosexual. É um retrato muito íntimo que se foca nas recordações de adolescência do realizador e nos quadros de sua mãe, fazendo um paralelismo entre os dois. É um filme de apenas 9 minutos, quase como um poema curto ou uma frase, um compasso olvidável numa sequência de curtas.
Na apresentação da sua curta, Patrícia Leal referiu que sabia que ao fazê-la sobre Grace, cujo nome deu origem ao título, esta iria ocupá-la e fazê-la sua. Grace é uma inglesa de origem dominicana com uma história de violência doméstica, de fuga e de envelhecer. Com uma pronúncia exótica, Grace conta as suas histórias mostrando velhas fotografias perante uma câmara que se consegue manter íntima sem ser invasiva.
“Jibberland” é o mundo de fantasia inventado por uma criança e filmado por Inês Machado, deixando-se levar pela imaginação da protagonista e aceitando qualquer regra imposta. É um cenário comum para qualquer um que já tenha visto alguma criança a brincar sozinha, com a diferença que a câmara parece provocar nela emoções ambíguas, vendo-se um sorriso esbater-se e tornar-se algo incómodo, alternando entre o querido e o constrangedor. Não é que as crianças não possam ser alvo de documentários, é que um plano mais longo pode ser algo quase violento para quem não se sabe defender dele.

João Miranda

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