Passada metade da Panorama – 5ª Mostra do Documentário, uma sessão com três curtas: “Emboscada por Dez Lados”, “O Estrangeiro” e “L’Éternel Départ”. O primeiro segue um músico chinês, que toca a Pipa, instrumento tradicional chinês, mas que abandonou a sua carreira para vir trabalhar para Portugal. Apesar de se tratar de um trabalho académico para uma cadeira num curso de cinema, o filme marca pela qualidade da imagem e pelas sensibilidade que aborda o tema, talvez pela principal exigência estabelecida pelo músico para se deixar ser filmado: a de não fazer uma entrevista. Assim, vemo-lo tocar o tema que dá o nome ao filme enquanto atende clientes numa loja de produtos chineses no centro de Lisboa, ficando sempre por resolver a questão do porquê: porquê deixar uma carreira quando se tem um talento óbvio, para fazer um trabalho menor?
“O Estrangeiro” mostra a procura em Macau por parte de uma personagem, que fica sempre nos limites da imagem, por alguém que conheceu, baseada em postais escritos quinze anos antes. Fora da imagem e fora da sociedade que o rodeia, bate a portas e percorre ruas desconhecidas numa procura em que os tempo apagou os traços e tornou impossível. Infelizmente só tem dezoito minutos e acaba por ficar um pouco desconexo, dividindo-se em três grandes momentos, sem qualquer ligação, mas que poderiam ser explorados numa longa metragem.
Quanto ao terceiro “L’Éternel Départ” de Saguenail, artista francês sediado no Porto, uma nova experiência: a de abandonar a sala de cinema na exibição de uma curta. De todos os filmes pretensiosos que dão mau nome ao cinema e às mostras e festivais, este é um exemplar perfeito: com qualidade de imagem e de som duvidosas, a afectação é tal que o realizador pediu que não fosse o legendado o filme porque as legendas iriam distrair, como o disse no início da sessão. Conta-se que Kubrick costumava ir ver exibições dos seus filmes e apontava aos projeccionistas como deveriam exibi-los correctamente, mas Kubrick era Kubrick. Quanto ao texto em si, cai na armadilha de que só o pessimismo e a negatividade parecem ter ainda uma aura de poder na nossa cultura, ficando-se por um depressivo amorfo e aborrecido. Se isto é a nossa vanguarda na área do cinema, estamos mal servidos.
João Miranda

