No quinto dia do Panorama – 5ª Mostra do Documentário Português voltamos a Abril. Desta, o Abril do interior, da Religião e da Fé, sobre dois aspectos: ex-votos e a celebração da Paixão na Semana Santa.
Ex-votos são objectos, feitos de vários materiais, oferecidos a uma entidade divina ou santo em agradecimento ao cumprimento de uma promessa feita numa altura de necessidade. Numa sociedade profundamente religiosa como a da Península Ibérica, este tipo de objectos é volumoso e variado. “Ex-votos Portugueses”, o primeiro filme da sessão da noite, procura explorar, como o próprio título indica, vários destes objectos, focando-se principalmente em pinturas, com vários motivos desde doenças, acidentes marítimos e outros. O documentário, quer no seu estilo, quer na imagem, está muito datado, para além de ser incoerente: fica-se entre o relato íntimo individual de uma conversa (talvez uma carta), o catálogo das obras, com um comentário mínimo sobre elas, e a palestra educativa. Fica a curiosidade sobre o assunto e um olhar para duas épocas: a dos ex-votos apresentados e a da produção do documentário, 1977, anos de experimentação cinematográfica nem sempre com sucesso.
O segundo filme “Terra de Abril” foi filmado no mesmo ano em Vilar de Perdizes, durante a representação da Paixão na Semana Santa, uma forma de teatro popular moralista medieval que sobrevive ainda em alguns locais da Europa, recuperada na altura após onze anos em que não tinha sido representada. O filme desdobra-se em vários níveis da vivência da aldeia neste período da Revolução: a preparação para a representação, a representação em si, a preparação para as eleições de 76, numa campanha eleitoral baseada em discursos em reuniões populares, as eleições em si e o dia-a-dia da vivência rural do trabalhar no campo e da construção. É um filme curioso, contruído por vários fios que se cruzam, revelando um tecido social complexo, onde a liberdade recente e as tradições antigas coexistem.
Em todos os filmes do período revolucionário que se têm visto, principalmente estes de pequenas aldeias e de grandes sonhos, fica a curiosidade de como estarão agora as coisas: o que terá acontecido às personagens que aparecem e por vezes assumem posições tão extremas que sabemos, a posteriori, insustentáveis, o que terá acontecido aos movimentos e às tradições… Talvez deste festival saiam novos documentários sobre eles.
João Miranda

