Lourdes Castro é uma artista madeirense cujo trabalho se foca em sombras e silhuetas. “Pelas Sombras” é, mais do que uma conversa, um relacionamento informal com esta artista, onde se fala da inspiração, da criatividade, da arte e da vida. Se, há primeira vista, parece que a artista está a desempenhar um papel, torna-se evidente com o tempo de que não é assim: há um encanto genuíno no descobrir e no dia-a-dia, o que se revela também na forma como contrói, de forma anacrónica e contra a cidade que se vai aproximando, um paraíso natural, quase como quem pinta um quadro.
Catarina Mourão, realizadora já com vários documentários em seu nome, consegue mostrar de forma não-intrusiva como se relacionam os diversos aspectos da vida de Lourdes Castro, na sua vivência solitária do quotidiano, nos actos banais que o preenchem e no seu relacionamento com a natureza. De câmara na mão, segue a artista pelas sombras enquanto esta se dedica a regar o seu jardim ou enquanto retira a roupa da corda e, de repente, surge a arte motivada por um elemento inesperado ou por uma frase.
É um filme de grande beleza e delicado, que nos faz pensar sobre a arte e a vida e a atitude que temos sobre elas, sobre a criatividade e sobre a natureza. Foi por essas razões que lhe foi atribuído o prémio SIGNIS no indielisboa do ano passado, atribuído a um filme português que privilegie os valores humanos e espirituais, para além de ter ganho o prémio do público para melhor longa metragem. Pode ser que, com o crescente prestígio e público dos documentários, chegue às nossas salas de cinema.
João Miranda

