Panorama: Dia 3 – Da revolução para a criatividade

(Fotos: Divulgação)
No terceiro dia da mostra, o foco muda da revolução e do tumulto social para a criatividade e o processo artístico. Sobre esse tema, foram exibidos três filmes, com um quarto à mistura que escapava dele.
O primeiro filme do dia foi “Ângulo Morto”, de Regina Guimarães, poeta conhecida por “Corbe”, que participou do projecto “Três Tristes Tigres” com Ana Deus. A sua incursão no cinema é mais infeliz que esse projecto, com uma preocupação estética, visual e verbal, óbvia, peca por se manter afastado do público, procurando uma riqueza onde ela não existe, acabando por exibir a miséria do quotidiano, da falência da grandeza humana apregoada. Já “Trésor” consegue, com alguma sensibilidade, documentar a experiência da realizadora Rita Brás no Brasil. Construído como um diário, fragmentado e incompleto, nele podemos ver algumas das pessoas e dos elementos que fizeram parte dessa experiência, nunca se atingindo, no entanto,  verdadeiramente qualquer empatia, o filme acaba por se tornar aborrecido nos seus cem minutos de duração e arrastar-se para um final que nos deixa no mesmo ponto onde começámos o filme. Estes dois filmes dificilmente poderiam ser definidos como documentários, o primeiro uma exploração poética de um conceito da realizadora, mais próximo da ficção e da poesia do que qualquer outra coisa, e o segundo um diário apático, como um registo de umas férias que temos de ver quando caímos nas garras de uma tia ou de um casal amigo…
Ainda sobre o tema do processo criativo, “Portraire”, de Luciana Fina, artista visual de origem italiana, é um ensaio sobre o retrato, com influências óbvias de Jean-Luc Godard, com as suas repetições, mudanças de linguagem, citações e cortes, que, apesar da sua curta duração, nos consegue pôr a reflectir sobre este estilo visual e a (im)possibilidade de conhecer O Outro. Segunda a apresentação da realizadora antes do filme, o objectivo era documentar o criar de uma nova obra, quase um “making-of”, mas este pequeno ensaio acaba por conseguir escapar a isso e revelar-se uma reflexão sobre identidade e relacionamento interpessoal.
No final do dia, “Quem Mora Na Minha Cabeça” revela o trabalho de Pedro Macedo, psiquiatra que se dedica a pacientes de Alzheimer, com uma técnica baseada na psicoterapia cujo objectivo é manter as capacidades e a autonomia das pessoas afectadas e cujo sucesso se pode ver no filme. Seguindo 13 doentes, o documentário mostra como a doença afecta as pessoas e como é essencial a terapia para a preservação da identidade, atingindo momentos de muita emoção quando somos confrontados com a candura e a abertura próprias do contexto terapêutico. Já mostrado em conferências dedicadas à saúde mental e medicina, pode no entanto ser visto por qualquer pessoa e de certeza que ressoará em quem o veja.
 
João Miranda 

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