No segundo dia desta mostra, o tema manteve-se na Revolução de Abril e no período que se seguiu, tanto na sua documentação, como na sua auto-representação nos media e na experimentação que permitiu.
O dia começou com “O Encoberto”, curta de onze minutos de Fernando Lopes, onde se pode ver a montagem e preparação da estátua de D. Sebastião em Lagos de João Cutileiro. Sem qualquer texto, excluindo um poema de Pessoa no final, a curta parece simbolizar a ansiedade dos portugueses na altura, quando algo estava a ser preparado, mas não tinha ainda sido revelado. Na mesma sessão, “Deus, Pátria, Autoridade” o segundo filme de Rui Simões (entrevistado pelo C7nema o ano passado, a propósito do seu último filme: “Ilha da Cova da Moura”). Com um estilo mais cru e explicitamente ideológico, “Deus, Pátria, Autoridade” é uma obra de propaganda, entre o didáctico e a crítica social, cheio de uma linguagem de esquerda, onde se pode ver os primeiros sinais do que iria ser a política nas décadas seguintes.
A esta sessão seguiu-se “Fantasia Lusitana”, já antes presente na edição de 2010 do indielisboa, onde João Canijo se dedica à compreensão, com base em arquivos da época, à auto-representação do regime, a nível nacional e internacional. É um filme curioso que dá um uso original ao material que tem disponível, mas que acaba por pecar pela brevidade e pela superficialidade com que explora um tema que deverá ser mais profundo e interessante, fica-se com a sensação de ter visto um álbum sobre o tema, vendo as fotografias e lendo as suas legendas, mas ignorando o texto que o explica em profundidade.
À noite, a maratona de sete filmes, que começou às nove e meia e se estendeu para lá das 6 da manhã, onde os filmes se dedicavam inicialmente ao registo da revolução e passavam para o explorar da liberdade no final. Infelizmente, só me foi possível assistir à primeira sessão, com os dois filmes “Revolução” de Ana Hatherly e “As Armas do Povo” do Sindicato dos Trabalhadores da Actividade Cinematográfica, um colectivo dos vários realizadores activos na altura. O filme de Ana Hatherly é um filme experimental, feito de sons capturados e de posters e murais pintados nas ruas de Lisboa no período revolucionário, com uma montagem rápida e desconjuntada, sem qualquer linha estética dominante, construída por sequências de objectos parciais desconexos e típica dos filmes que se vêem nos museus, onde costuma ser exibida. Já o segundo filme é um esforço de registar o máximo possível, apesar do estilo resultante ser também um pouco incongruente, já que reflecte o estilo pessoal dos vários realizadores participantes. A ilusão e ideologia que guiavam esses tempos são vistos agora de uma forma irónica e com um sabor quase amargo, o que provocou muitos risos nas filmagens do 1º de Maio, onde se vêem os discursos dos principais intervenientes no estádio do Inatel, um sempre contido Àlvaro Cunhal e um já teatral e pomposo Mário Soares. Com tudo o que se sabe agora sobre esses tempos fica a dúvida sobre o que se passaria naquelas cabeças, com tantas negociações paralelas e nem sempre legais ou honestas.
João Miranda

