Panorama 2011: ‘Cenas da luta de classes em Portugal’ por João Miranda

(Fotos: Divulgação)
É com um filme rodado em 76, em pleno período revolucionário, que se inicia a quinta edição de Panorama, uma mostra dedicada ao documentário português. Baseado numa questão levantada na edição anterior, pretende-se este ano, para além de mostrar o que se tem feito neste género em Portugal, explorar a forma como o documentário se relaciona com o mundo actual. Para tal, foram seleccionados vários filmes sobre um período seminal da sociedade moderna portuguesa e dos seus problemas: a Revolução de Abril. A acompanhar o programa de exibições, está também disponível um catálogo onde, para além das fichas técnicas dos filmes, se podem encontrar textos de vários realizadores participantes na mostra que se debruçam sobre o tema no qual se baseia.
“Cenas da luta…”, explorando o momento pós-revolucionário do ponto de vista de um outsider, filmado por dois americanos, consegue mostrar a confusão que se seguiu e a forma como egos e interesses do mercado se sobrepuseram e desviaram o processo revolucionário para criar uma nova classe política burguesa de direita, sobre o disfarce do socialismo. Consegue ver-se nesta sequência de revolução e subsequente reacção a origem dos problemas políticos actuais e como as mesmas soluções falhadas são de novo avançadas para resolver nova crise económica, desde o recurso ao FMI às medidas de austeridade.
Na introdução feita ao filme por elementos da organização falou-se de um dos objectivos da mostra ser o levar a reflectir sobre os problemas actuais a partir do documentário, mas, pela reacção do público e conversas ouvidas (efectivamente sem moralizar), fica a ideia que há um saudosismo por um período em que a mudança parecia possível, onde ainda não estávamos alienados num ultra-individualismo atomista e onde o pensamento pós-moderno ainda não tinha declarado a morte das ideologias, um fetichismo baseado na falácia dos “bons velhos tempos” limitado ao período de alguns meses depois de Abril.
Sala cheia para a abertura desta mostra, o público com diversas idades, mas essencialmente mais velho. Espera-se que se mantenha o interesse e que, das várias discussões planeadas entre os filmes, surjam novas ideias que nos ajudem a compreender a relação do cinema com a sociedade e novas atitudes para um período difícil que se avizinha.
 
João Miranda 

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