Cavalo de corrida!
Depois do delírio digital de Tintin, Spielberg regressa aos clássicos, pisca o olho a John Ford, e reserva lugar na pole position para o Óscar de Melhor Filme com «Cavalo de Guerra». Isto enquanto avança já com a produção de um novo Parque Jurássico.
Uma vez mais, Steven Spielberg confirmou a habilidade de ampliar o sonho à escala do grande espectáculo e conferir-lhe o habitual toque de Midas predestinado a mais um inevitável sucesso de bilheteira; o que neste caso significou converter a adaptação do romance épico juvenil de Michael Morpurgo, um fenomenal sucesso nos teatros do West End londrino e também já na Broadway, num verdadeiro cavalo de corrida para os Óscares. Por isso apostou forte num enlevo épico e, não sem alguma surpresa, confiou no mestre da comédia britânica Richard Curtis (Black Adder, Quatro Casamentos e Um Funeral ou Bridget Jones) para encontrar o tom certo ao destino de um cavalo de Devon que conhecerá o horror da guerra das trincheiras na Primeira Grande Guerra. Isto durante os oito meses em que os computadores ‘mastigavam’ (ou renderizavam) toda a carga digital de As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne. Cavalod e Guerra chega a 23 de Fevereiro chega às nossas salas a galope e ao som dos violinos de John Williams. Meninas, agarrem nos lenços; rapazes, em sentido!
A trama conta-se num ápice: depois do garboso Joey ser vendido para a cavalaria, durante a Primeira Grande Guerra, o jovem Albert alista-se para um conflito onde o cavalo mudará a vida de muitos. Se na peça a presença do cavalo movido por bonecreiros uma complexa teia de peças (provavelmente inspirada nos estudos dos estudos dos movimentos do cavalo de Leonardo Da Vinci) nos dá a presença exacta do equídeo que fascina as plateias, na adaptação para cinema foram usados diversos cavalos, sendo que dois (Finder e Abraham) serviram de actores para a espantosa interpretação que o mago Spileberg captou em câmara. Acrescente-se ainda a generosidade clássica da paisagem rural britânica e a fotografia do polaco Janusz Kaminski para desenhar numa paleta de génio o tom naturalista e saturado do pôr-do-sol final que parece evocar um momento chave de A Desaparecida de John Ford.
A propósito desse luxo visual, o mestre de efeitos especiais assegurou no encontro que teve com a imprensa em Londres (onde esteve a GQ) que não fez “qualquer alteração ao cenário natural” e que as cenas finais foram captadas durante “três gloriosos dias com pôr-do-sol”. E argumentou ainda que “as pessoas estão tão habituadas aos processos digitais que não acreditam mais no cinema. Se vêem algo belo, acham logo que é falso, feito por computador”. Por isso mesmo, tiramos o chapéu ao trabalho de Kaminski. E fique-se a saber que mesmo das sequencias mais marcantes, em que Joey cavalga pelas trincheiras e arrasta sucessivos novelos de arames farpados, nunca foram usados truques digitais, mas apenas arame de borracha pintado.
Apesar de ser um cineasta marcado pela guerra – o seu pai lutou em Burma na 2ª Guerra Mundial – Spielberg sublinhou estava fora dos seus horizontes uma aproximação a O Resgate do Soldado Ryan ou a mini-série Band of Brothers. “É uma versão romantizada da Primeira Grande Guerra”, sublinha “em que o cavalo é a ligação ultra-humana capaz de ligar ambos os lados do conflito.” Ainda que admita ser sensível ao tema: “Quando tinha 13, 14 anos fazia muitos filmes caseiros de guerra usando a minha Super 8. Mas aqui o que me interessou foi a forma como um animal pode juntar as pessoas”, sublinhou.
Outra das apostas ganhas esteva na descoberta um novo rosto para a personagem principal. Assim nasceu Jeremy Irvine, que entretanto assegurou protagonismo em três outros filmes (Now is Good, Great Expectations e The Railway Man) e já motivou coros de meninas a gritar o seu nome em histeria nas barricadas da antestreia. Há de facto muito mérito de Spielberg (e da sua produtora desde 1978 Kathy Kennedy) na selecção cuidadosa do restante elenco que garante a veracidade da época. Para além de Irvine, temos ainda um cast sem vedetas – talvez com a excepção de Emily Watson -, onde se destacam os nomes dos promissores Tom Hiddleston (com um papelão no assombroso The Deep Blue Sea, de Terence Davies) e Benedict Cumberbatch (que vemos em A Toupeira e actualmente a filmar The Hobbit com Peter Jackson) a dar o justo tom clássico de graduados da orgulhosa e pomposa cavalaria britânica. No final, já todos juntos, caminhamos para o pôr-do-sol.
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Actores, autor e produtora comentam o trabalho de Spielberg:
Jeremy Irvine
(Albert Narracott)
“Antes deste filme, estive quase dois anos numa peça de teatro, no papel de uma árvore, sem qualquer diálogo. Passar daí para fazer um filme, já era louco, mas ter diálogos, ter o papel principal e ser dirigido por Spielberg foi ainda mais irreal. Era algo que estava muito para além dos meus sonhos”.
Emily Watson
(Rose Narracott)
“Foi um grande dia quando recebi o telefonema dizendo que Spielberg estava a adaptar o livro e a peça de teatro Cavalo de Guerra e se queria encontrar comigo.”
Tom Hiddleston
(Capitão Nicholls)
“No primeiro dia de rodagem disse-me que quando se contratam actores também se contratam realizadores, porque também acabamos por fazer escolhas com os nossos instintos. É muito generoso e transmite-nos confiança.”
Benedict Cumberbatch
(Maj. Jamie Stewart)
“Eu não tive de fazer audição, o Spielberg ofereceu-me o papel. Apesar de poder ter qualquer actor que queira, prefere escolher actores menos conhecidos. Ele não precisas de estrelas, a estrela é ele mesmo”.
Michael Morpurgo
(autor)
“Têm sido dois anos extraordinários. Desde que Kathy Kennedy me ligou até ao dia de hoje, para mim só tem existido este filme. Fantástico”.
Kathy Kennedy
(produtora)
“Continua a espantar-me o seu nível de entusiasmo. Desde que comecei a trabalhar com ele. É fantástico como passa de um género para o outro, mas dando sempre muita importância à história”.
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Paulo Portugal, em Londres
Artigo originalmente publicado na GQ

