Clássicos do C7nema: «Blade Runner», de Ridley Scott

(Fotos: Divulgação)
O C7nema iniciou em Julho uma série de artigos sobre os filmes mais importantes da história do cinema. Assim, e tal como os arquivos históricos da Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos, que todos os anos adicionam obras ao seu espólio, nós decidimos imortalizar algumas obras que consideramos, pelo seu valor cultural, histórico e artístico, merecedoras de fazer parte dos Clássicos do C7nema.
 
E depois de José Varregoso ter escrito sobre «Vertigo» e «The Shinning», Pedro Quedas apresenta agora a nova adição do c7nema aos seus clássicos:
 
Blade Runner – Perigo Iminente
De Ridley Scott (1982) 
 
 
I’ve seen things you people wouldn’t believe: Attack ships on fire off the shoulder of Orion; I’ve watched C-beams glitter in the dark near the Tannhauser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.” – Roy Batty
{xtypo_dropcap}c{/xtypo_dropcap}hamas ardem no topo de torres que se destacam, imponentes, na vastidão escura, pontuada a milhares de pontos pequenos de luz, da metrópole de uma Los Angeles do futuro. Um “spinner” voa na direcção do ecrã e desaparece. Relâmpagos atacam os prédios enquanto as chamas ardem com explosões ainda maiores, mais assustadoras. Um olho azul reflecte as chamas pontuais que vão rasgando a vida electrónica da noite na cidade, enquanto cada vez mais “spinners” vão voando através do ecrã. Aproximamo-nos da forma titânica do Tyrell Building, foco dominante do mar de arranha-céus que o rodeia. A câmara aproxima-se cada vez mais, cada vez mais, até chegarmos a uma sala, onde um homem fuma em quase total escuridão.
 
Existem diversas razões, tanto emocionais quanto intelectuais, para justificar o estatuto de culto que “Blade Runner” tem na memória cinéfila colectiva da ficção científica. Mas apenas uma chega para ilustrar a sua genialidade: puro deslumbramento.

Fumo, beatas e andróides

Realizado por Ridley Scott, em 1982, “Blade Runner” foi recebido com alguma estranheza e perplexidade. Um filme que é hoje reconhecido como um inevitável clássico do cinema, passou quase despercebido nas salas de cinemas. A raiz para esta desconfiança inicial pode-se dever ao facto de estarmos perante um filme tão difícil de qualificar. Estamos perante uma obra profética de ficção científica ou um simples policial à moda antiga? Um filme de acção vertiginosa ou uma reflexão sobre aquilo em que consiste, na sua mais pura essência, a condição humana?
 
Na verdade, um pouco de tudo. No papel, este filme tinha muitas razões para não resultar. A sua complexidade e a natureza ambígua das escolhas dos personagens levou, aliás, a que os produtores, indo contra os desejos de todos os envolvidos, desde os actores ao realizador, incluíssem uma totalmente desnecessária narração no produto final que chegou às salas de cinema em 1982, felizmente retirada das mais recentes versões disponíveis do filme. Mas resulta. Resulta como nenhum outro filme de ficção científica. E uma das principais razões para esse sucesso é universal, transcende géneros e convenções cinematográficas: o belíssimo desempenho dos seus actores.
 
 

Os Deckards e o Roy

Por todo o filme passam um rol fascinante de grandes actores e actrizes, todos eles essenciais à ligação que estabelecemos neste puzzle labiríntico de traições, meias verdades e completos mistérios. Mas são os protagonistas, Harrison Ford e Rutger Hauer, que carregam este clássico distópico. Os caminhos que os fizeram chegar a estes papéis foram, no entanto, bastante diferente.
Harrison Ford, por exemplo, não foi a primeira escolha para o papel do caçador de ‘replicants’ Rick Deckard. O papel foi escrito com o mítico Robert Mitchum em mente e o Ridley Scott passou a discutir o papel com Dustin Hoffman. No fim, uma recomendação fervorosa de Steven Spielberg, que estava na altura a terminar a pós-produção de “Salteadores da Arca Perdida”, garantiu o papel a Ford. A galeria de nomes que foram também considerados para o papel é impressionante: Gene Hackman, Sean Connery, Jack Nicholson, Paul Newman, Clint Eastwood, Tommy Lee Jones, Arnold Schwarzenegger, Al Pacino, e Burt Reynolds.
 
Já Rutger Hauer foi uma escolha bem mais fácil – Ridley Scott não ponderou nunca dar o papel a outro actor. A sua performance icónica foi elogiada até pelo próprio autor do conto em que o filme se baseou (“Do Androids Dream of Electric Sheep?”), Phillip K. Dick, que, depois de ver o filme, o descreveu como “o Batty perfeito – frio, Ariano, sem defeitos”.

Aprovado pelo mestre

O mítico autor de ficção científica, que morreu pobre e nunca chegou a ver o produto final do filme de Ridley Scott, teve no entanto acesso ao guião e admitiu que este era um óptimo complemento ao seu conto. Apesar de notoriamente céptico quanto a toda a indústria de Hollywood e a capacidade de um filme traduzir com fidelidade a sua obra, Phillip K. Dick chegou a ver algumas das primeiras cenas de efeitos especiais construídas para o filme e ficou agradavelmente impressionado. “Vi um excerto dos efeitos especiais de Douglas Trumbull para “Blade Runner” e reconheci-os imediatamente. Era o meu mundo interior. Eles conseguiram capturá-lo de forma perfeita”, elogiou o autor.

Visões do futuro

O estilo visual de “Blade Runner” é, também ele, uma confluência de influências passadas e futuras. Assumidamente inspirada na visão distópica de uma urbe futurista criada por Fritz Land no clássico “Metropolis”, desde as tonalidades sujas e chuvosas à própria separação de classes (com ricos a viverem no topo da cidade e os pobres nos becos esquecidos junto ao chão), a concepção visual do filme de Ridley Scott tornou-se o ‘standard’ para os que o seguiram. 
 
É raro hoje ver uma cidade futurista distópica que não siga as mesmas linhas visuais, a mesma escuridão e noite eterna, a mesma difícil convivência entre as possibilidades ilimitadas da tecnologia e a irredutível falibilidade do ser humano. A procura de controlo total da vida, desde a sua expressão na natureza física dos espaços como das próprias mentes dos que os habitam, é um tema recorrente na melhor ficção científica – “Blade Runner” cristalizou, como nenhum antes e depois de si, a sua materialização visual nas nossas memórias colectivas.
 
 

A Insustentável Incerteza do Ser

O que torna “Blade Runner” um objecto de cinema tão fascinante é o modo como desafia uma imediata catalogação. É um dos melhores exemplos da concepção visual e conceptual do “neo-noir” – e não é. É uma pérola de imaginação e criatividade na ficção científica, com uma tapeçaria visual de arranha-céus infinitos e carros voadores que ainda hoje é carinhosamente imitada – e não é. É um soberbo filme de acção – e não é. Acima de tudo, este filme não é mais que uma reflexão sobre a condição humana. O que nos torna humanos? O que nos distingue nas máquinas que criamos à nossa imagem? Se toda a experiência humana pode ser explicada pela ciência, chegaremos alguma vez ao ponto de a recriarmos na perfeição?
Uma das ambiguidades que ainda dura quando se vê o “Blade Runner” é a distinção entre os seres humanos e os andróides. Será que Deckard passaria o teste para identificar os ‘replicants’? Será que isso interessa? Nascemos com uma alma ou a nossa vida não passa de uma colagem de memórias e experiências vividas? Se assim é, quão menos vivos estarão os andróides que se revoltam contra a escravidão que se lembram de sentir à mão dos humanos? Quão menos genuína é a sua dor? Quão menos sinceras são as suas lágrimas? “Time to die”.
 
 
Pedro Quedas 

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