Estreia hoje em Portugal «Rise of the Planet of the Apes» (Planeta dos Macacos : A Origem), segundo ‘reboot’ de uma das mais amadas e originais sagas da ficção científica contemporânea. Um dos momentos-chave mais amados da série é o momento em que os macacos dizem “não!“, marcando o fim da escravatura e o início do Planeta dos Macacos.
Vamos recordar os “não” que marcaram esta série (com spoilers para os diversos filmes).
A saga original (5 filmes de 1968 a 1973) baseada no livro do francês Pierre Boulle contava como um astronaunta chamado George Taylor (Charlton Heston) descobria um planeta misterioso e deserto onde macacos falavam e governavam os humanos, que eram uma raça primitiva e sem a habilidade de falar.
O arrepiante final do filme original trazia uma revelação que mudaria a ficção científica: Taylor descobre a Estátua da Liberdade numa praia abandonada deste “planeta” deserto. Afinal ele estava na Terra, num futuro tão distante que a evolução tinha tratado de reduzir os humanos a bichos irracionais e os macacos à sociedade dominante.
Nas sequelas vimos a descobrir como o Mundo evolui para esta desgraça. Em «Beneath the Planet of the Apes» é-nos revelado como os macacos haviam sido tornado escravos pelos humanos e usado todo o seu conhecimento para destruir os seus donos e criar a sua sociedade. Se no final de «Beneath» o planeta dos macacos é destruido por uma bomba gigante escondida no sub-solo (que os poucos humanos racionais que sobravam veneravam como um deus), em «Escape from the Planet of the Apes» viajamos aos anos 70 para ver como Cornelius e Zira (que escapam à bomba através de uma máquina do tempo) tentam avisar os humanos do mal que os aguardam e de como só a paz trará a sobrevivência.
É nestes avisos que somos introduzidos ao “não!” dos macacos. Cornelius explica que Aldo, um gorila escravo, certo dia diz “não!” a um ser humano que o maltratava, inspirando os demais macacos-escravos a uma rebelião que viria a levar ao fim da humanidade como raça dominante.
No entanto, a frase viria aparecer no filme seguinte, «Conquest of the Planet of the Apes». Nesta fita vemos como César – filho de Cornelius e Zira – usa a sua inteligência e capacidade de falar para organizar uma revolta numa sociedade onde os macacos são escravos e dominados através da palavra “não”. Aqui a palavra surge num contexto radicalmente diferente. César é o único macaco falante e inteligente e quando ele ordena a chaçina dos humanos sobreviventes, uma macaca chamada Lisa enfrenta-o dizendo “não!” convencendo-o assim a poupá-los.
A história de Aldo, o primeiro macaco que disse não, e César, o macaco inteligente filho dos macacos vindos do futuro, é recuperada no filme final «Battle for the Planet of the Apes», onde César enfrenta Aldo pelo destino da humanidade. Um quer criar um mundo de coexistência pacífica, o outro quer que os humanos sejam reduzidos a uma espécie menor.
Em «Rise of the Planet of the Apes» o mundo e o imaginário são bem diferentes. Nele seguimos como o cientista Will Rodman (James Franco) faz experiência em macacos para encontrar a cura para o Alzheimer. Isto cria macacos mais inteligentes, mas o filho de dois deles nasce com essa evolução inscrita nos seus genes: ele chama-se César. Quando a experiência é cancelada, Rodman fica com César a viver em sua casa, e este aprende a magia da vida fora do laboratório mas também os perigos do mundo humano. Uma série de incidentes faz com que César seja descoberto e preso num centro de criação de macacos onde é maltratado. Sem fé em Rodman e na humanidade, César usa a sua inteligência para organizar um exército capaz de fugir da cidade de São Francisco.
Se «Rise» é mais uma aventura familiar com personagens carismáticas do que uma peça de ficção científica pura como os 5 filmes originais, é uma agradável surpresa como consegue gerir esta vertente moderna com uma grande fidelidade ao espírito do material original. E portanto também aqui César diz “não!” aos humanos que o oprimem, num momento emocionante que ficará no legado de «Planet of the Apes».
José Pedro Lopes

