
I. O terror “Found Footage”
Os mais célebres filmes deste género são:
Cannibal Holocaust (1980) – Quatro documentaristas italianos desapareceram na Amazónia. Meses mais tarde, as suas filmagens são encontradas e descobrimos que foram brutalmente mortos por uma tribo canibal. Um dos filmes mais polémicos da história do cinema, e o primeiro registo no género “Found Footage” que acabaria em tribunais sob a acusação das mortes serem reais.
The Last Broadcast (1998) – Um jovem documentarista está a fazer um filme chamado “Fact or Fiction” onde tenta revelar a realidade por detrás de alguns mitos urbanos. O filme tornou-se popular por recuperar o género “Found Footage” e por uma recta final assustadora contando com uma cena de morte muito realista, próxima do “snuff”. Infelizmente para os autores, só conseguiu ser distribuído após a explosão que foi “The Blair Witch Project”. Mesmo assim, o projecto que custou uns mínimos 900 dólares ganhou 12 milhões nos EUA.
The Blair Witch Project (1999) – O cinema mundial assistiu de boca aberta como um modesto filme de 500.000 dólares conquistou a impossível quantia de 250 milhões de dólares só em cinema mundialmente. O filme apareceu pela primeira vez no festival de Sundance onde foi adquirido pela distribuidora Artisan. Foi promovido, no ano que antecedeu a sua estreia, por uma das mais bem conseguidas campanhas de marketing da história do cinema, baseada na internet e em notícias falsas. Quando estreou, já estava na boca do mundo. No filme podíamos ver as filmagens de três amigos que andavam a fazer um documentário num bosque sobre a bruxa de Blair.
Exemplos recentes: «The Locals», «The Tunnel», «The Last Exorcism», «Apollo 18», «[REC3]: Genesis», «The Troll Hunter», «Paranormal Activity 3»,
A primeira e mais curiosa situação polémica em que o filme se viu envolvido foi na sua Itália natal, onde foi acusado de ser um “snuff” (um filme que conta com assassinatos reais). “Cannibal Holocaust” estreou dia 7 de Fevereiro de 1980, com uma campanha de marketing que o vendia como as filmagens encontradas de um grupo de documentaristas desaparecidos na Amazónia. No filme, víamos provas de que eles haviam sido violentamente torturados e mortos por um grupo de canibais. Víamos também sinistros rituais dessa tribo: uma indígena a ser violada e empalada, animais a serem violentamente mortos.
O público italiano estava habituado aos “splatter” e a cinema forte, mas mesmo assim “Cannibal” levou centenas espectadores a saírem da sala em horror e foi alvo de duríssimas críticas de todo o tipo de grupos conservadores e moralistas. Mas o mais curioso estava para vir.
Dez dias depois da sua estreia em Milão, o realizador Ruggero Deodato foi preso. Os tribunais alegavam que os quatro actores mostrados no filme haviam sido mortos para tornar o filme mais realista. E pior, que a cena do empalamento (a cena mais conhecida do filme, e uma cena chave da história do “gore”) era… real.
Para piorar a sua situação, os actores haviam assinado um contracto com os produtores do filme que especificava que não poderiam aparecer em público durante um ano para manter a ideia que o filme era efectivamente real. Isto piorou a situação de Deodata, pois os tribunais usaram o facto dos actores estarem desaparecidos contra ele. Inicialmente, apesar de Deodata ter sido preso, os actores não se revelaram com medo de serem processados por violar o seu contrato profissional.
Ele acabou por mostrar em tribunal como o efeito fora conseguido e mostrou filmagens da protagonista indígena a interagir com a equipa de filmagens após a filmagem da cena.
Apesar de exonerado das acusações de homicídio, Deodata viu o seu filme continuar a ser banido pela tortura e morte de animais, a qual ele confirmou em tribunal que eram reais. As acusações prendiam-se a que as cenas com animais eram cruéis, desnecessárias e sensacionalistas. Muitos acusavam também o filme de abusar dos rituais dos indígenas para os retratar de maneira horrorosa – todos os nativos americanos que aparecem no filme são indígenas e não actores. As mortes dos animais não eram apenas reais como também “normais” para quem fora filmado a fazê-las, mesmo que deliberadamente exageradas para o ecrã.
Durante três anos Deodata lutou em tribunal para que o filme fosse “desbanido”. Só em 1984 lhe deram razão, e “Cannibal Holocaust” regressou aos cinemas tendo sido recebido com emoção pelos fãs do cinema “splatter” e “gore”.
No resto do mundo o filme foi fortemente censurado, e frequentemente banido. No Reino Unido, o filme apenas foi “autorizado” em 1998, e mesmo assim teve que remover quase todas as mortes reais de animais.
Muitos anos mais tarde, Deodata veio a confessar que lamentava o uso da morte dos animais no ecrã. A sua carreira contou com vários títulos nos anos 80 e inicio dos 90, mas todos num registo diferente do de “Cannibal Holocaust” e mais próximo do “giallo” (thriller/terror/erotismo) do qual se destaca “Camping del Terrore” (1987).
Ele está a preparar nos dias de hoje uma sequela chamada “Cannibals”.
“Cannibal Holocaust” está nos dias de hoje descontinuado em Portugal:
(2011: readaptação de um artigo originalmente escrito em 2009)

