O terror ‘Found Footage’ e a polémica «Holocausto Canibal»

(Fotos: Divulgação)
Um contexto histórico para  a saga “Paranormal Activity” (Actividade Paranormal)
por José Pedro Lopes

I. O terror “Found Footage”

“Paranormal Activity” foi o filme-sensação de 2007 que chegou comercialmente às salas em 2009. Sim, foram precisos dois anos para este pequeno filme chegar aos cinemas do mundo inteiro, tendo conquistado antes fãs por festivais de cinema fantástico e gerando um pequeno fenómeno de culto. Com um orçamento minúsculo de 15.000 dólares, depressa conseguiu conquistar mais de 193 milhões de dólares de receitas em todo o mundo. Ou seja, 12800 vezes o que custou. Desde então surgiram duas sequelas, a última da quais estreou recentemente em Portugal. 
 
E com isto uma coisa podemos concluir: o cinema “Found Footage” é uma real oportunidade de sucesso para jovens cineastas com pouco ou nenhum dinheiro, e merece ser estudado com seriedade. Porque em mais nenhum género cinematográfico o orçamento faz “menos” diferença: filmes com financiamento nulo como “The Blair With Project” ou “Paranormal Activity” arrecadaram valores superiores a um jackpot do Euromilhões.
 
Found Footage” é um género cinematográfico que cruza o terror com o “mockumentary” (documentário falso), e onde o que nos é apresentado são umas alegadas filmagens feitas por pessoas que desapareceram ou foram encontradas mortas. O espectador é posto numa posição onde está a ver a “prova de um crime”. Estes filmes têm algumas convenções estéticas para os tornar mais credíveis: os actores falam directamente para a câmara a qual abana muito para recriar o realismo de uma filmagem caseira. Geralmente estes filmes são promovidos por campanhas de marketing baratas mas astutas: vendem a ideia que as filmagens são mesmo reais e que faz toda a diferença o espectador assistir ao filme.

Os mais célebres filmes deste género são:

Cannibal Holocaust (1980) – Quatro documentaristas italianos desapareceram na Amazónia. Meses mais tarde, as suas filmagens são encontradas e descobrimos que foram brutalmente mortos por uma tribo canibal. Um dos filmes mais polémicos da história do cinema, e o primeiro registo no género “Found Footage” que acabaria em tribunais sob a acusação das mortes serem reais.

The Last Broadcast (1998) – Um jovem documentarista está a fazer um filme chamado “Fact or Fiction” onde tenta revelar a realidade por detrás de alguns mitos urbanos. O filme tornou-se popular por recuperar o género “Found Footage” e por uma recta final assustadora contando com uma cena de morte muito realista, próxima do “snuff”. Infelizmente para os autores, só conseguiu ser distribuído após a explosão que foi “The Blair Witch Project”. Mesmo assim, o projecto que custou uns mínimos 900 dólares ganhou 12 milhões nos EUA.

The Blair Witch Project (1999) – O cinema mundial assistiu de boca aberta como um modesto filme de 500.000 dólares conquistou a impossível quantia de 250 milhões de dólares só em cinema mundialmente. O filme apareceu pela primeira vez no festival de Sundance onde foi adquirido pela distribuidora Artisan. Foi promovido, no ano que antecedeu a sua estreia, por uma das mais bem conseguidas campanhas de marketing da história do cinema, baseada na internet e em notícias falsas. Quando estreou, já estava na boca do mundo. No filme podíamos ver as filmagens de três amigos que andavam a fazer um documentário num bosque sobre a bruxa de Blair. 

 

REC (2007) – Uma jornalista e o seu cameraman ficam presos num prédio em quarentena devido a um surto zombie. Feroz filme de terror espanhol, com a mão de Jaume Balagueró (“Darkness”, “Fragiles”) por detrás. Conquistou o festival francês Gerandarmer e o prémio máximo do Fantasporto, e foi um forte sucesso nas bilheteiras de todo o mundo. Para aumentar aos seus lucros, foi alvo de um “remake” americano chamado “Quarantine”.
Cloverfield (2008) – Apesar de ser um filme de estúdio, da Paramount, “Cloverfield” conta com um modesto orçamento de 25 milhões mas uma impressionante receita de 200 milhões só em cinemas em todo o mundo. Com o génio de JJ Abrams (“LOST”) por detrás, somos convidados a ver uma cassete recuperada dos escombros de Nova Iorque após esta ter sido arrasada por monstruosa criatura. Com efeitos especiais brilhantes e um ritmo implacável, “Cloverfield” estreou sob grande expectativa graças uma uma genial campanha de marketing baseada na internet.

Exemplos recentes:  «The Locals», «The Tunnel» «The Last Exorcism»«Apollo 18»«[REC3]: Genesis» «The Troll Hunter» «Paranormal Activity 3»

 
II. A polémica “Cannibal Holocaust”
“Cannibal Holocaust”, o berço do cinema “Found Footage”, é um dos filmes mais polémicos da história, tendo despertado a fúria de tudo o que são instituições civis ou moralistas, assim como dos defensores dos direitos dos animais. Foi banido em meio mundo, e ainda nos dias de hoje é visto como um filme perigoso.

A primeira e mais curiosa situação polémica em que o filme se viu envolvido foi na sua Itália natal, onde foi acusado de ser um “snuff” (um filme que conta com assassinatos reais). “Cannibal Holocaust” estreou dia 7 de Fevereiro de 1980, com uma campanha de marketing que o vendia como as filmagens encontradas de um grupo de documentaristas desaparecidos na Amazónia. No filme, víamos provas de que eles haviam sido violentamente torturados e mortos por um grupo de canibais. Víamos também sinistros rituais dessa tribo: uma indígena a ser violada e empalada, animais a serem violentamente mortos.

O público italiano estava habituado aos “splatter” e a cinema forte, mas mesmo assim “Cannibal” levou centenas espectadores a saírem da sala em horror e foi alvo de duríssimas críticas de todo o tipo de grupos conservadores e moralistas. Mas o mais curioso estava para vir.

Dez dias depois da sua estreia em Milão, o realizador Ruggero Deodato foi preso. Os tribunais alegavam que os quatro actores mostrados no filme haviam sido mortos para tornar o filme mais realista. E pior, que a cena do empalamento (a cena mais conhecida do filme, e uma cena chave da história do “gore”) era… real.

Para piorar a sua situação, os actores haviam assinado um contracto com os produtores do filme que especificava que não poderiam aparecer em público durante um ano para manter a ideia que o filme era efectivamente real. Isto piorou a situação de Deodata, pois os tribunais usaram o facto dos actores estarem desaparecidos contra ele. Inicialmente, apesar de Deodata ter sido preso, os actores não se revelaram com medo de serem processados por violar o seu contrato profissional.

 
Eventualmente, Deodata conseguiu contactar o actor Luca Barbarescgi e pediu-lhe que reunisse o elenco e se revelassem em público para o salvarem de ser acusado de quadruplo homicídio. Ironizando a situação, os quatros actores revelaram-se num “talk show” italiano, para grande diversão da opinião pública.
É importante explicar que, fora os quatro actores italianos, todos os demais eram indígenas da floresta Amazónica e não actores. Deodata orientou-os durante as filmagens, mas muito do que vemos no ecrã é real. Por tal, ele teve de provar que a cena do empalamento era falsa. Isto porque quem era impalada era uma nativa americana, que Deodata não conseguiu contactar e provar que estava viva.

Ele acabou por mostrar em tribunal como o efeito fora conseguido e mostrou filmagens da protagonista indígena a interagir com a equipa de filmagens após a filmagem da cena.

Apesar de exonerado das acusações de homicídio, Deodata viu o seu filme continuar a ser banido pela tortura e morte de animais, a qual ele confirmou em tribunal que eram reais. As acusações prendiam-se a que as cenas com animais eram cruéis, desnecessárias e sensacionalistas. Muitos acusavam também o filme de abusar dos rituais dos indígenas para os retratar de maneira horrorosa – todos os nativos americanos que aparecem no filme são indígenas e não actores. As mortes dos animais não eram apenas reais como também “normais” para quem fora filmado a fazê-las, mesmo que deliberadamente exageradas para o ecrã.

Durante três anos Deodata lutou em tribunal para que o filme fosse “desbanido”. Só em 1984 lhe deram razão, e “Cannibal Holocaust” regressou aos cinemas tendo sido recebido com emoção pelos fãs do cinema “splatter” e “gore”.

No resto do mundo o filme foi fortemente censurado, e frequentemente banido. No Reino Unido, o filme apenas foi “autorizado” em 1998, e mesmo assim teve que remover quase todas as mortes reais de animais.

Muitos anos mais tarde, Deodata veio a confessar que lamentava o uso da morte dos animais no ecrã. A sua carreira contou com vários títulos nos anos 80 e inicio dos 90, mas todos num registo diferente do de “Cannibal Holocaust” e mais próximo do “giallo” (thriller/terror/erotismo) do qual se destaca “Camping del Terrore” (1987).

Ele está a preparar nos dias de hoje uma sequela chamada “Cannibals”.

“Cannibal Holocaust” está nos dias de hoje descontinuado em Portugal:

 
http://www.youtube.com/watch?v=-86OlXf723E 
 
 
José Pedro Lopes
(2011: readaptação de um artigo originalmente escrito em 2009)

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