Selton Mello ganha mundos… e um Kikito de Cristal

Homenageado com o Kikito de Cristal em Gramado, Selton Mello atravessa uma nova fase internacional entre Zero K, Anaconda e La Perra, sem abandonar o desejo de voltar à realização.

Selton Mello entrou definitivamente numa zona internacional da sua carreira. Recém-saído do set de Zero K, adaptação da obra de Don DeLillo realizada por Michael Almereyda, o ator mineiro tem ampliado a presença em produções estrangeiras depois de passar por Anaconda, ao lado de Jack Black e Paul Rudd, e por La Perra, da chilena Dominga Sotomayor, exibido em maio no Festival de Cannes. Em Gramado, onde o último destes títulos será apresentado nesta sexta-feira como filme de encerramento do festival, o brasileiro também viveu uma noite de consagração: na quarta-feira, recebeu o Kikito de Cristal pelo conjunto da carreira.

A homenagem celebra uma trajetória que ultrapassa as fronteiras brasileiras e ganha novo impulso depois do fenómeno internacional de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, vencedor do Óscar de Melhor Filme Internacional em 2025. O êxito da longa-metragem, na qual Selton interpreta Rubens Paiva, ajudou a projetar ainda mais o ator para fora do Brasil. Na quinta-feira, durante uma conferência de imprensa em Gramado, falou sobre esta nova fase e, agora, tem pela frente uma masterclass no festival, antes da sessão de La Perra que encerra a programação competitiva.

“Passei toda a minha adolescência, dos 12 aos 20 anos, morando praticamente nos estúdios da Herbert Richers, dobrando filmes de Hollywood, dobrando Tom Hanks, dobrando Robert Downey Jr., dobrando Sean Penn, dobrando Griffin Dunne. Dobrei todos aqueles atores pensando assim: ‘É isso. Eu nunca vou furar essa tela e estar lá do outro lado’. Mas, como a vida é bonita, o mundo girou, e agora estou eu lá fora”, contou Selton ao C7nema durante a passagem pelas pré-estreias mundiais de Anaconda.

A internacionalização chega num momento em que o ator também olha para a própria carreira como realizador. Depois de Feliz Natal (2008), a sua primeira longa-metragem atrás das câmaras, Selton passou a encarar a realização como um território particularmente estimulante. “Sou capricorniano, nos signos do Horóscopo, ou seja, sou focado, e, no caso de realizar filmes, uma cabeça como a minha, que pensa muita coisa ao mesmo tempo, encaixa-se bem no que é exigido. Depois de realizar, passei a encarar o trabalho de interpretação como se fossem férias. É só chegar lá, dizer o texto, com verdade, e ir embora, com o dever concluído. Realizar exige atenção a muita coisa… e gosto disso”, afirmou ao C7nema, pouco depois de anunciar estar envolvido num projeto de longa-metragem na Argentina.

O desejo de voltar à realização inclui ainda um projeto brasileiro de grande peso literário: Selton prepara uma adaptação para o cinema de O Alienista, de Machado de Assis. A experiência acumulada diante e atrás das câmaras ajuda a explicar a amplitude de uma carreira que começou ainda na infância e passou por televisão, teatro, cinema e dobragem, antes de encontrar na realização uma nova forma de expressão.

O Kikito de Cristal recebido em Gramado insere Selton numa galeria de artistas cuja obra atravessou fronteiras. Criado em 2007, o prémio foi inaugurado com o documentarista Eduardo Coutinho e já distinguiu nomes como os argentinos Cecilia Roth e Juan José Campanella, a alemã Mariëtte Rissenbeek, o uruguaio César Troncoso, o moçambicano Ruy Guerra e o brasileiro Othon Bastos. Em 2025, a distinção foi entregue a Rodrigo Santoro.

No caso de Selton, a homenagem também reconhece a força de uma filmografia que inclui Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, que completa 25 anos, e O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, além de trabalhos populares como O Auto da Compadecida e A Mulher Invisível. Mas o prémio também recupera um aspeto menos lembrado da sua trajetória: a realização.

É aí que reaparece Quando o Tempo Cair, curta-metragem que Selton realizou e que foi lançada no Festival do Rio em 2006. O filme, recentemente recuperado pela MUBI, tem Jorge Loredo, o inesquecível Zé Bonitinho, como protagonista. Em vez de explorar o potencial cómico do intérprete, Selton entregou-lhe um drama sobre velhice, desemprego e etarismo, dando a Loredo um dos trabalhos mais inesperadamente comoventes da sua carreira.

Escrito por Selton Mello e Marcelo Vidicato, com fotografia de Juarez Pavelak, Quando o Tempo Cair acompanha Ivan, um homem com mais de 70 anos que vive num pequeno apartamento com o filho desempregado e o neto. Na tentativa de aliviar as dificuldades da família, procura trabalho e depara-se com a violência de um mercado que já não o considera apto. A curta-metragem antecipa uma característica que se tornaria importante na filmografia de Selton como realizador: a capacidade de observar personagens vulneráveis sem as transformar em caricaturas.

Agora, entre um set internacional e outro, o ator prepara também novas incursões atrás das câmaras. A passagem por Gramado, marcada pelo Kikito de Cristal, pela conferência de imprensa e pela masterclass, funciona assim como uma espécie de ponto de inflexão: aos 53 anos, Selton Mello olha para uma carreira consolidada no Brasil enquanto começa a ocupar, cada vez mais, um espaço do outro lado do ecrã que durante a adolescência parecia impossível de alcançar.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/t12y

Destaques