Os anos 1990 foram, para uma geração, a década do desamparo. Depois do fim das grandes utopias políticas, sobraram a ressaca de um país em reconstrução e uma juventude que encontrou na música uma forma de traduzir o desconforto. É desse ambiente que emerge Chorão – Só Os Loucos Sabem, realizado por Hugo Prata e Felipe Novaes e apresentado no 54.º Festival de Gramado. Na pele de Alexandre Magno Abrão (1970-2013), José Loreto entrega, até agora, a interpretação favorita para o Kikito de Melhor Ator. A foto acima, de Edson Vara, mostra o ator e o realizador na passadeira vermelha de Gramado.
Depois de Elis (2016), Prata regressa ao território do épico biográfico, mas encontra no músico de rock de Santos uma trajetória que, por trás da casca de brutamontes, esconde uma história de amor. É um filme de rock’n’roll, mas também uma história de amor, define o realizador. O ponto de contacto com Elis Regina está ainda na morte precoce e na angústia que marcou os dois artistas no fim da vida. A procura dos realizadores passa por entender o que angustiou personalidades tão fortes. O resultado é um filme que procura a alma dramática de Chorão, mais interessado no homem por trás do ícone dos Charlie Brown Jr. do que numa simples sucessão de êxitos.
Loreto interpreta o músico com uma entrega física e emocional impressionante, enquanto Fernanda Marques dá a Graziela uma dimensão própria, sem a reduzir à condição de companheira do protagonista. Georgette Fadel também se destaca como Nilda, mãe de Chorão. A estrutura do filme aproxima-se de Rocky, Um Lutador (1976), de John G. Avildsen: como o pugilista de Sylvester Stallone, Chorão surge como uma espécie de Cinderela sem sapatinho de cristal, tentando vencer num mundo que insiste em negar-lhe espaço. A diferença é que a sua arma é a canção. Entre a pobreza, o skate, a ascensão dos Charlie Brown Jr. e os abismos pessoais, Prata e Novaes constroem um retrato afetivo e febril, sustentado pelo guarda-roupa de Carolina Agresta, pelo desenho de som de Eric Ribeiro Cristani e por uma câmara que alterna energia e lirismo. É, até agora, um dos filmes mais viscerais de Gramado — e uma demonstração de que o biopic pode ser também cinema de linguagem.

