A primeira curta-metragem a tornar-se um verdadeiro íman de elogios entre o público do 54.º Festival de Cinema de Gramado é uma produção gaúcha que já havia levado o cinema brasileiro ao exterior. Exibida na competição internacional do último BAFICI, em Buenos Aires, Banho Maria, de Gabriel Faccini, tem 14 minutos e acompanha uma mulher que, numa manhã de calor escaldante, decide faltar ao trabalho quando já está na plataforma ferroviária. A partir desse gesto aparentemente banal, o filme transforma uma fuga à rotina numa reflexão sobre exaustão, tempo, desejo e o direito ao ócio.
Com Silvana Rodrigues e Lukas Rodrigues no elenco, a produção encontra num parque aquático povoado por enormes estátuas de dinossauros um cenário insólito para falar da experiência de uma classe trabalhadora submetida à lógica de um mundo que parece funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana. A realização meticulosa de Faccini aposta numa abordagem sensorial, brincando com diferentes escalas de tempo e fazendo do lazer uma espécie de ato de resistência. “Quando estávamos a desenvolver o argumento para Banho Maria, eu e a Silvana Rodrigues — que é coargumentista e também protagoniza o filme — pensámos, em primeiro lugar, nas nossas experiências partilhadas. Nas nossas angústias e sonhos”, contou o cineasta ao C7nema durante o BAFICI.
Escrito ainda durante a pandemia, o filme nasceu de encontros que, segundo Faccini, muitas vezes pareciam mais sessões de terapia do que reuniões de argumento. “Aos poucos, fomos percebendo que nos interessava falar sobre temas intrinsecamente relacionados com a experiência da classe trabalhadora, com uma carga de trabalho extenuante, além da ansiedade climática e do pouco espaço que encontramos para o ócio nas nossas vidas”, explica. A intenção, porém, não era transformar essas questões num discurso direto, mas encontrar uma forma sensorial de as abordar. “Talvez o mundo esteja a acabar, mas precisamos de acordar amanhã cedo para ir trabalhar. Há uma melancolia do quotidiano em confronto com o catastrofismo desta quadra da História humana”, resume.
É justamente nesse choque entre a banalidade da rotina e a sensação de catástrofe permanente que a curta-metragem constrói a sua dramaturgia. A decisão de abandonar o trabalho por um dia ganha ainda uma dimensão de representação: “Não sei se necessariamente procurámos levar uma representação específica para o exterior, mas, sem dúvida, há uma potência em duas personagens negras optarem por um dia de folga num parque aquático a meio da semana”, afirma Faccini. A escolha dá ao filme uma camada adicional, sem reduzir a sua crónica sobre cansaço e liberdade a uma tese.
A passagem pelo BAFICI também proporcionou ao realizador um contacto direto com o cinema argentino contemporâneo, num momento de forte restrição de recursos para o setor cultural. Faccini destaca a vitalidade que encontrou no festival de Buenos Aires, apesar do cenário político e económico adverso. “Na própria Competição Internacional, da qual Banho Maria fez parte, tive a oportunidade de assistir a três filmes argentinos, muito diferentes nas suas propostas e todos executados de forma primorosa”, relata. Para ele, a experiência argentina encontra ecos no Brasil, onde a escassez de recursos também obriga os realizadores a procurar novas soluções.
“Foi muito rico poder trocar experiências com cineastas das mais diversas regiões do mundo e perceber que, mesmo na nossa variedade de temáticas e abordagens, conseguimos estabelecer ligações com as histórias contadas”, diz. O cineasta também se impressionou com a resposta do público portenho. “O BAFICI programa um grande número de filmes e é incrível ver as salas quase sempre lotadas, mesmo em horário laboral, em dias de semana. Isso demonstra uma cultura cinematográfica consolidada e um interesse real do público em consumir cinema, em todas as suas formas.”
Agora, em Gramado, Banho Maria repete a capacidade de estabelecer uma ligação imediata com os espectadores. Depois de passar pelo BAFICI representando o Brasil, a curta-metragem confirma a força de uma tradição gaúcha que já projetou obras como Ilha das Flores e O Natal do Burrinho para além das fronteiras do Estado. Em apenas 14 minutos, Faccini transforma uma manhã de folga num parque aquático numa pequena rebelião contra a tirania do relógio — e encontra, entre risos, estranhamento e identificação, uma das primeiras grandes respostas populares desta edição do festival.

