“Bio”: Gerbase encontra novas plateias em Gramado

Disponível na mostra online do Festival de Gramado, Bio – Construindo Uma Vida recupera o engenho de Carlos Gerbase num falso documentário.

O 54.º Festival de Cinema de Gramado começou ontem à noite, com uma sessão repleta para a exibição de Antártida, confirmando desde a abertura a força do encontro cinematográfico gaúcho. Até dia 22, o site oficial do festival reúne também pérolas numa mostra online de acesso aberto. O maior tesouro desta montra digital, este ano, é assinado por um músico de rock, escritor, professor e, sobretudo, mestre da realização: Carlos Gerbase. Bio – Construindo Uma Vida (2017) é um dos seus filmes de vísceras sentimentais à vista. Reencontrá-lo na Internet é um júbilo.

Nos tempos em que o Rio Grande do Sul vicejava nos ecrãs do país com narrativas de invenção, consolidando-se, nos anos 1980 e na primeira metade dos 90, como uma das grandes fontes de originalidade em formas e tramas, Gerbase surgiu como um sátiro no Olimpo de realizadores instigados pelos constrangimentos políticos da época. Desde cedo, propôs uma reflexão sobre o desejo como exceção às regras impostas. Curtas-metragens seminais como Sexo & Beethoven – O Reencontro (1980) e O Corpo de Flávia (1990), além da longa-metragem Tolerância (2000), marco erótico da Retomada, depuraram a estética avessa a juízos morais construída por ele em paralelo com uma vibrante jornada literária. A sua prosa, expressa em romances como Professores e em contos — Como Comer a Pera é uma joia —, também se detém sobre o embate entre “desejar” e “obedecer”.

A cada mergulho nos ecrãs, Gerbase procura dispositivos narrativos capazes de transgredir o lugar-comum dos filmes sobre afetos. É o caso de Bio – Construindo Uma Vida, laureado com o Prémio do Júri Popular de Gramado em 2017. A produção conquistou ainda um merecidíssimo Prémio Especial do Júri Gramadense, pela fina direção de atores: são 39 intérpretes, revezando-se em depoimentos que compõem um grande mosaico humano. Tudo segue o formato de mockumentário, termo usado para designar falsos documentários, como Zelig (1983) e This Is Spinal Tap (1984).

Em Bio, amparado pela fotografia de Bruno Polidoro, Gerbase atomiza as cartilhas do biopic ao construir a biografia de um cientista fictício. O nome nunca é citado, mas os seus feitos, nas pesquisas sobre símios e nas suas cirandas amorosas, mexeram com a vaidade de muita gente ao longo dos seus 110 anos de vida. Entre o final dos anos 1950 e um futuro situado em 2070, numa temporalidade que remete à esboçada por Jia Zhang-ke em As Montanhas Se Separam (2015), o investigador protagoniza peripécias românticas e profissionais inusitadas. É o que nos contam o psicólogo vivido por Marco Ricca, num exercício de elegância, a médica encarnada por Maitê Proença, com a sua ironia ferina, e a dúbia exobióloga interpretada por Maria Fernanda Cândido, que receberá o Kikito de Cristal por feitos como este.

Cada uma das pessoas filmadas por Gerbase é uma peça de um puzzle sobre modos de amar, perder e gozar num Brasil cheio de cabrestos, inclusive sexuais. A montagem de Milton do Prado dá uma progressão quase aritmética a cada fala, criando uma contínua exponenciação de desabafos que se complementam pela atração ou pela controvérsia. É um filme em que a inteligência nos conduz memória adentro — e que, ao reaparecer na programação online de Gramado, reafirma Gerbase como um dos grandes inventores do cinema gaúcho.

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