É nesta sexta-feira (14) que o Festival de Cinema de Gramado abre oficialmente a sua 54.ª edição, levando ao Palácio dos Festivais, na Serra Gaúcha, a primeira sessão de uma maratona que se prolongará até 22 de agosto e reunirá cinema brasileiro, produções internacionais, debates, homenagens e diferentes mostras competitivas. O pontapé inicial será dado por Antártida, thriller de Bruno Safadi protagonizado por Marina Ruy Barbosa, Leandra Leal, Andrea Beltrão, Antonio Calloni e Lázaro Ramos. A sessão acontece no contexto de uma programação que celebra a diversidade autoral, mas de olho num diálogo com o público, numa mistura que há de consolidar, mais uma vez, aquela cidade do estado do Rio Grande do Sul como uma das principais montras do audiovisual brasileiro.
A largada acontece numa semana particularmente sensível para o circuito de festivais sul-americanos, marcada pela apreensão em torno de um possível cancelamento (aparentemente já descartado) do Festival de Brasília, ameaçado por problemas de transferência de verbas que, pelo menos por agora, parecem encaminhados. Gramado, por sua vez, entra em campo com a segurança de quem carrega 53 anos de história e uma tradição que ultrapassa a dimensão do tapete vermelho. Ao longo de cinco décadas, a festa serrana transformou-se numa espécie de termómetro popular do cinema brasileiro, mantendo uma atenção especial às autoralidades produzidas fora do eixo Rio-São Paulo e funcionando, em diferentes momentos, como plataforma de visibilidade para cinematografias regionais que depois alcançariam circuitos nacionais e internacionais.
Pernambuco é um dos exemplos mais eloquentes dessa vocação. Foi em Gramado que O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, encontrou uma das suas primeiras grandes consagrações no Brasil, em 2012, quando o realizador recebeu o Kikito de Melhor Realização. Em 2021, Renata Pinheiro levou a bandeira pernambucana novamente ao alto com Carro Rei. Minas Gerais também consolidou a sua presença na Serra Gaúcha, especialmente com Marte Um, de Gabriel Martins, vencedor em 2022. E o Ceará, território de cineastas como Karim Aïnouz, também já encontrou em Gramado um espaço de reconhecimento: em 2019, Pacarrete, de Allan Deberton, saiu consagrado da competição.
A cartografia da premiação recente, contudo, é ainda mais ampla. Gramado já entregou o seu principal Kikito ao Acre, com Noites Alienígenas, de Sérgio de Carvalho, em 2022; a Goiás, com Oeste Outra Vez, de Érico Rassi, em 2024; e a Mato Grosso, com Cinco Tipos de Medo, de Bruno Bini, em 2025. A sucessão de vitórias é reveladora de um festival que, embora tenha construído uma imagem fortemente associada à indústria e ao glamour, também ajudou a fazer com que diferentes sotaques regionais passassem a integrar a conversa sobre o cinema brasileiro contemporâneo.
É impossível falar de Gramado sem falar do Kikito, o pequeno deus-sol sorridente inspirado numa figura mítica associada aos povos indígenas da região dos Pampas e transformado em troféu do festival nos anos 1970. A personagem tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis do cinema brasileiro e ajudou a cimentar a relação entre a cidade, o Palácio dos Festivais e a ideia de celebração cinematográfica. A escolha de Antártida para a abertura reforça essa vocação para o espetáculo sem abandonar a aposta na produção nacional. Realizada por Bruno Safadi, com argumento de Claudia Jouvin, a longa-metragem transporta a narrativa para a Estação Comandante Diniz, no extremo sul do planeta, onde a cientista Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, é vítima de um crime brutal. Isolados pelo frio e sem possibilidade de resgate imediato, os homens da base tornam-se suspeitos, incluindo o comandante Barros, interpretado por Antonio Calloni, e o capitão Vicente, vivido por Lázaro Ramos. Cabe à subcomandante Elisabeth, personagem de Andrea Beltrão, conduzir a investigação, enquanto as restantes mulheres da estação tentam enfrentar o medo, o silêncio e a violência.
Apesar da geografia gelada do enredo, a Antártida de Safadi foi construída maioritariamente no Rio de Janeiro. A produção utilizou um espaço de aproximadamente 1.500 metros quadrados equipado com câmaras de autotracking, recursos de Inteligência Artificial e Realidade Aumentada e cerca de 300 metros quadrados de painéis LED. A tecnologia permitiu combinar ambientes físicos e virtuais, imagens captadas na Patagónia por câmaras 360º e cenários produzidos em estúdio. O resultado é uma superprodução concebida para criar a sensação de isolamento polar sem que o elenco precisasse de deixar o calor carioca.
A abertura também estabelece uma ponte direta com uma das homenagens mais aguardadas desta edição. Andrea Beltrão receberá o Troféu Oscarito, tradicional distinção de Gramado dedicada a artistas de trajetória marcante no audiovisual brasileiro. A atriz, porém, não poderá comparecer à cerimónia. A sua presença no filme de abertura ganha, por isso, um peso simbólico adicional numa edição que pretende celebrar carreiras consolidadas sem perder de vista a renovação da produção nacional.
A curadoria das longas-metragens brasileiras e dos documentários está nas mãos de Ana Flávia Cavalcanti, Camila Morgado e Marcos Santuario. O trio selecionou uma competição que privilegia a diversidade de origens, linguagens e modelos de produção, enquanto a programação geral se expande para além da disputa principal, com sessões especiais, atividades de mercado, debates e homenagens.
A competição de longas-metragens brasileiras começa neste sábado (15) e reúne seis títulos. Do Ceará chega Feito Pipa, de Allan Deberton; o Rio de Janeiro está representado por Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia; São Paulo comparece com Chorão: Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Felipe Novaes; Leite em Pó, de Carlos Segundo, articula Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Norte; o Distrito Federal entra na disputa com Justino – Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte; e Minas Gerais volta à competição com Nosso Segredo, de Grace Passô. A organização informa que as longas-metragens competitivas serão exibidas de forma inédita no Brasil.
A competição documental acrescenta outras quatro vozes ao painel. O Projeto, de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic, abre a mostra; depois vêm Empeleitada, de Micaela Xukuru, Chico Ludermir e Sergio Borges; Afrontosa, de Coraci Ruiz e Julio Matos; e Gonzaguinha, da Maior Liberdade, de Susanna Lira. A programação mantém ainda uma presença expressiva da produção gaúcha, além de curtas-metragens brasileiras e mostras paralelas.

Entre as homenagens, o ator, argumentista e realizador Marcos Caruso receberá o Troféu Cidade de Gramado. Já a produtora Renata Almeida Magalhães será contemplada com o Troféu Eduardo Abelin, distinção que reconhece a sua trajetória no cinema brasileiro e a sua atuação na política cinematográfica. O conjunto de homenagens completa-se com Maria Fernanda Cândido e Selton Mello, que receberão, pela primeira vez conjuntamente, o Kikito de Cristal, criado para distinguir artistas com trajetórias que ultrapassaram as fronteiras brasileiras.
A programação desta edição recupera uma tradição histórica do festival. No dia 21, já na reta final, Gramado exibirá La Perra, de Dominga Sotomayor, produção chilena que passou pela Quinzena de Cineastas de Cannes e chegará posteriormente ao Festival de San Sebastián. Produzido por Rodrigo Teixeira, o filme tem Selton no elenco e representa o regresso de uma presença latino-americana de maior destaque à programação do evento, depois de anos em que Gramado manteve uma competição específica dedicada aos cinemas hispano-americanos.
Sotomayor chega à Serra Gaúcha com um currículo que já a coloca entre as autoras de relevo do cinema latino-americano. Em 2018, ganhou o prémio de Melhor Realização no Festival de Locarno por Tarde para Morrer Jovem, longa-metragem que também disputou o Leopardo de Ouro. Em La Perra, a realizadora acompanha Silvia, uma mulher solitária que vive numa ilha castigada pelo vento e pelo isolamento e que estabelece uma relação afetiva com uma cadela chamada Yuri, nome que havia escolhido para uma filha que nunca teve. O animal tornou-se uma das figuras centrais do filme e rendeu à produção o Palm Dog em Cannes.
A passagem de La Perra por Gramado será acompanhada pela homenagem a Selton Mello e Maria Fernanda Cândido, que receberão o Kikito de Cristal. Criado em 2007, o troféu já foi entregue a nomes como Eduardo Coutinho, Cecilia Roth, Juan José Campanella, Mariëtte Rissenbeek, Cesar Troncoso, Ruy Guerra, Othon Bastos e Rodrigo Santoro. Agora, a distinção passa a reconhecer simultaneamente dois artistas brasileiros de projeção internacional.
A decisão sobre os vencedores ficará para a noite de 22 de agosto, quando o Palácio dos Festivais receberá a cerimónia de premiação das mostras de longas-metragens brasileiras e documentários. A competição das longas-metragens ficcionais será avaliada por Cris Vianna, Helena Ranaldi, Fabio Meira, Kênia Freitas e Marcelo Serrado, enquanto o júri dos documentários reúne Bárbara Paz, Caco Ciocler e Paulo Mendonça.

