A Academia de Cinema de Espanha anunciou esta sexta-feira, em Madrid, os 25 títulos de produção espanhola — 23 longas-metragens e duas séries — que integrarão a programação da 74.ª edição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, a decorrer entre 18 e 26 de setembro. A seleção confirma uma aposta simultânea em autores consagrados, novas vozes do cinema ibérico e produções televisivas de ambição cinematográfica, distribuídas pelas várias secções do certame.

A Competição Oficial será marcada pela estreia de três cineastas espanhóis na corrida à Concha de Ouro. Roberto Bueso regressa ao festival com El mal padre, drama protagonizado por Eduard Fernández que acompanha um célebre escritor e académico que, após anos de afastamento, reúne os três filhos para lhes fazer um último pedido: passar o Natal na antiga casa de férias da família.
Também Mikel Gurrea regressa à competição depois do reconhecimento obtido por Suro, distinguido em 2022 com o Prémio Irizar de Melhor Filme Basco, o Prémio FIPRESCI da crítica internacional e o prémio de Melhor Argumento da Associação Basca de Argumentistas. Em Sants, Victoria Luengo interpreta uma mulher que se junta a um grupo especializado no roubo de artefactos religiosos enquanto enfrenta a morte iminente da mãe, interpretada por Ariadna Gil.
A terceira estreia competitiva pertence a Javier Ruiz Caldera, que apresenta 5 minutos más, com Javier Cámara, Berto Romero — igualmente responsável pelo argumento — e Belén Cuesta. A comédia dramática acompanha um casal preso num ciclo temporal que obriga ambos a reviver incessantemente a mesma crise conjugal. Embora seja a primeira vez que disputa a Concha de Ouro, Ruiz Caldera mantém uma longa ligação ao festival, no qual participa desde os tempos da então designada Mostra de Escolas de Cinema, tendo regressado depois com obras como Superlópez e a série El otro lado.
A televisão volta a assumir um lugar de relevo na Seleção Oficial através de El castillo, série policial de seis episódios apresentada fora de competição. Inspirada no livro El proxeneta, de Mabel Lozano, a produção reconstrói a ascensão da máfia do proxenetismo em Espanha. O projeto foi criado por Isabel Peña e Eduardo Villanueva, dois nomes associados a obras marcantes do thriller espanhol recente, enquanto a realização principal cabe a Elena Martín Gimeno, autora de Creatura, anteriormente distinguido em San Sebastián. Sandra Romero, revelação do festival com Por donde pasa el silencio, assume igualmente parte da realização.
As Sessões Especiais da Seleção Oficial acolhem quatro longas-metragens e uma série, reforçando o peso de realizadores veteranos. Koldo Almandoz apresenta Azken Agurra, tragicomédia existencial sobre o diretor de uma agência funerária especializada em cerimónias laicas personalizadas e uma jovem estagiária que começa a trabalhar ao seu lado. O realizador basco mantém uma relação contínua com San Sebastián desde o final da década de 1990.
Daniel Monzón regressa com Ruega por nosotras, drama ambientado em 1974 sobre uma jovem internada no antigo Patronato de Protección a la Mujer, instituição criada durante o franquismo para controlar mulheres consideradas “desviantes”. Monzón regressa assim ao certame depois de títulos como Las leyes de la frontera, mantendo uma carreira marcada por sucessos como Celda 211 e El niño, ambos distinguidos com vários Prémios Goya.
Outro dos grandes destaques é Sacamantecas, terceira longa-metragem de David Pérez Sañudo, protagonizada por Antonio de la Torre e Patricia López Arnaiz. Situado nos últimos tempos da Terceira Guerra Carlista, o filme acompanha uma série de homicídios em Vitória e a busca por justiça conduzida pela irmã de uma das vítimas. O realizador conquistou notoriedade com Ane, vencedor de vários prémios, incluindo o Irizar de Melhor Filme Basco.
A programação inclui ainda Más allá de la sociedad, série documental criada por J. A. Bayona e Carlos Torres. A produção retoma a história no ponto em que terminava La sociedad de la nieve, acompanhando o regresso dos sobreviventes da tragédia dos Andes às respetivas famílias e explorando as consequências humanas posteriores ao célebre acidente aéreo.
Completa esta secção Bajañí, de Fernando Trueba, um documentário musical que percorre Espanha, Marrocos e França através da guitarra de Niño Josele. O realizador vencedor do Óscar por Belle époque regressa assim a um festival com o qual construiu uma das relações mais consistentes da história recente, apresentando ali obras desde o final da década de 1970.
A secção dedicada aos novos autores confirma a aposta em cineastas emergentes. Javier Giner estreia-se na longa-metragem com Esta soledad, drama passado em Bilbau que reflete sobre a solidão contemporânea através de duas personagens interpretadas por Oriol Pla e Marina Salas. Também Jaime Lorente faz a sua estreia cinematográfica com El mal hijo, adaptação do romance homónimo de Salvador S. Molina, centrada numa criança abandonada pelo pai que passa a viver com a avó.
A completar a seleção surge Sieben Tage Februar, da realizadora germano-ucraniana Tatjana Moutchnik. Tendo como pano de fundo a invasão russa da Ucrânia, o filme acompanha o reencontro de dois irmãos em Estugarda durante o funeral da mãe. O projeto havia sido distinguido na edição anterior do mercado WIP Europa do Festival de San Sebastián.
A programação espanhola agora anunciada constitui apenas uma primeira amostra da 74.ª edição do certame basco. Nas próximas semanas, serão revelados os restantes títulos internacionais que completarão as diferentes secções competitivas e paralelas, consolidando um programa que volta a combinar cinema de autor, produções de grande visibilidade e espaço para novos realizadores.
A secção Horizontes Latinos, tradicional montra do melhor cinema produzido na América Latina, reúne este ano obras que passaram por Cannes e pela Berlinale, confirmando o papel de San Sebastián como uma das principais plataformas europeias para o cinema do continente. Fernando Eimbcke regressa à secção com Moscas, vencedor do WIP Latam Industry Award em 2025 e apresentado este ano em competição na Berlinale. O realizador mexicano acompanha a história de uma mulher de 55 anos confrontada com a solidão, as dificuldades económicas e uma cirurgia que não consegue pagar, prosseguindo uma filmografia marcada pelo olhar intimista sobre personagens à margem.
Também do México chega Ceniza en la boca, a sexta longa-metragem realizada por Diego Luna. Depois da estreia nas Sessões Especiais do Festival de Cannes, o ator e realizador apresenta um drama sobre dois irmãos que se reencontram durante o processo migratório entre o México e Madrid, explorando as fraturas familiares provocadas pelo exílio e pela procura de novas oportunidades.

Outra presença de destaque é a chilena Manuela Martelli, que regressa ao festival com El deshielo, thriller estreado na secção Un Certain Regard de Cannes. Ambientado num hotel de montanha, o filme acompanha duas adolescentes cuja amizade é posta à prova quando uma delas desaparece, desencadeando uma investigação que revela segredos ocultos.
O paraguaio Marcelo Martinessi apresenta Narciso, vencedor do Prémio FIPRESCI da Berlinale 2026. O projeto havia passado anteriormente pelo Fórum de Coprodução de San Sebastián, reforçando a importância do festival no desenvolvimento de produções latino-americanas. Martinessi regressa assim ao certame depois do reconhecimento internacional conquistado com Las herederas.
Completa a secção Chicas tristes, primeira longa-metragem de Fernanda Tovar. Distinguido na Berlinale com o Grande Prémio do Júri e o Urso de Cristal da secção Generation 14plus, o filme acompanha um grupo de amigas cuja relação é profundamente alterada por um acontecimento traumático que as obriga a escolher entre o silêncio e a vingança.
Uma das secções mais livres do festival volta a reunir alguns dos nomes mais relevantes do cinema contemporâneo. O navarro Oskar Alegria apresenta HAMALAU gau, obra construída ao longo de catorze noites que dialoga poeticamente com o universo artístico de Jorge Oteiza através de múltiplas vozes e registos. Meritxell Colell Aparicio chega com Lejos de los árboles, selecionado igualmente para o Festival de Locarno. O filme acompanha uma artista mexicana que viaja até ao Peru para recuperar o legado do avô, procurando cartografar sonoramente línguas ameaçadas de desaparecer.
Depois da estreia na Quinzena dos Cineastas de Cannes, Bruno Dumont leva a San Sebastián Les Roches rouges, narrativa centrada na rivalidade entre dois grupos de crianças, através da qual o realizador francês reflete sobre a violência, a amizade, a morte e a descoberta do mundo. Outro dos grandes nomes da programação é Isaki Lacuesta, que apresenta o documentário Jaleos, narrado por C. Tangana. O filme percorre a história do flamenco enquanto fenómeno artístico, político e social, consolidando a longa relação do cineasta catalão com San Sebastián, onde conquistou duas Conchas de Ouro. A secção recebe ainda a estreia de Dust, novo capítulo da série iniciada por Tsai Ming-liang em torno do seu monge budista errante. Desta vez, o cineasta malaio escolhe San Sebastián e a província de Guipúscoa como cenário para uma nova deriva contemplativa.

Entre os títulos mais aguardados da secção Perlak encontra-se La bola negra, de Javier Ambrossi e Javier Calvo, distinguido com o prémio de Melhor Realização na última edição do Festival de Cannes, partilhado ex aequo com Paweł Pawlikowski por Fatherland. Inspirado num projeto inacabado de Federico García Lorca, o filme acompanha três homens em diferentes épocas — 1932, 1937 e 2017 — unidos por heranças familiares, desejo, identidade sexual e memória histórica. A dupla regressa assim a San Sebastián depois do êxito de La llamada e da série La Mesías, consolidando uma das carreiras mais influentes da produção audiovisual espanhola contemporânea.
A programação do Velódromo inclui Muguruza FM 40 Tour, documentário realizado por Ander Merino Etxebeste e Fermín Muguruza, dedicado aos quarenta anos de atividade artística e política do músico basco. O filme revisita uma carreira profundamente ligada à resistência cultural e ao ativismo social.
Já Aritz Moreno apresenta Karateka, inspirado na história real da campeã olímpica Sandra Sánchez, que conquistou a medalha de ouro na modalidade de kata aos 39 anos. Com Andrea Ros, Patrick Criado e Ernesto Alterio no elenco, o realizador regressa ao festival depois de obras como Ventajas de viajar en tren e Moscas.
A organização do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián confirmou que esta é apenas a primeira vaga de produções espanholas selecionadas. À medida que forem anunciados os restantes filmes das diferentes secções, novas obras de produção espanhola deverão juntar-se a um programa que volta a afirmar o certame basco como uma das grandes referências do calendário cinematográfico europeu.

