Apresentado fora de concurso na 82.ª Mostra de Veneza, Il Maestro, de Andrea Di Stefano, prepara-se agora para mais uma prova do grand slam dos festivais de cinema . Exibido no Festival Cairo, o filme tem raízes autobiográficas do próprio realizador, inspirado num encontro decisivo da sua adolescência com um mestre de ténis que, mais do que ensinar técnica, lhe abriu espaço para crescer. Essa memória íntima tornou-se o motor de uma história que aborda a dor de falhar, o peso das expectativas e a possibilidade de renascer. “Muitas cenas são situações que realmente vivi”, disse o cineasta.
No filme, Felice, um rapaz de 13 anos esmagado pela obsessão do pai de o transformar num campeão, é entregue aos cuidados de Raul Gatti, um ex-tenista decadente que vive tanto de pequenas glórias do passado como de grandes frustrações do presente. Pierfrancesco Favino, que interpreta Raul, sublinhou em Veneza que a sua personagem está longe de qualquer ideal de mentor: é um homem derrotado, frágil, por vezes até pouco admirável. Mas é justamente essa imperfeição que o torna capaz de tocar o jovem Felice, preso a ideias paternas sufocantes sobre vencer e perder. Em Veneza, Favino explicou que o cinema tem insistido em narrativas sobre a superação e o sucesso, deixando de fora a grande maioria: “nos torneios, um ganha e sessenta e três perdem — e ninguém fala deles”. Il Maestro tenta precisamente dar um rosto a esses “outros”.
Para Ludovica Rampoldi, coautora do argumento, o filme tornou-se mais denso à medida que os anos passaram desde a primeira versão, escrita em 2005. A experiência acumulada ao longo dos anos mudou o foco do filme, permitindo uma abordagem menos centrada no desporto e mais na humanidade das personagens: “um homem que vive projetado no passado e um rapaz projetado no futuro”, como descreveu.
A relação entre Raul e Felice cresce ao longo de um verão por entre viagens pela costa italiana, derrotas, mentiras e descobertas. Através dessa convivência, cada um encontra no outro uma forma de sobrevivência emocional. Di Stefano resumiu o seu impulso inicial: “Quis fazer um filme onde dois derrotados pudessem, juntos, construir uma vitória”. “Hoje existe uma obsessão narcisista pelo sucesso, mas este filme mostra que é possível existir e viver sem ser o número um.”, acrescentou Favino.
O resultado é uma comédia dramática com alma italiana, herdeira do humor agridoce e da ternura desastrada que marcaram o género. Il Maestro acredita, acima de tudo, que é possível ensinar — e aprender — mesmo a partir do falhanço. E que, às vezes, basta um verão para mudar tudo tudo numa vida.
Il Maestro: o filme que transforma o falhanço numa lição de vida
(Fotos: Divulgação)
Link curto do artigo: https://c7nema.net/c79k

