“Mãe Só Há Uma” chega à Penha no Cinema Circulação

(Fotos: Divulgação)

Já lá vão quase dez anos desde que Mãe Só Há Uma nasceu, na secção Panorama da Berlinale de 2016, numa altura em que a sua realizadora, Anna Muylaert, ainda colhia os frutos do sucesso de público e crítica de Que Horas Ela Volta? (2015). Muita coisa mudou no seu cinema desde então — incluindo a estreia recente de outra obra autoral sobre o tema da maternidade: A Melhor Mãe do Mundo, também apresentada no Festival de Berlim e distinguida, há poucos dias, com um prémio em Biarritz. Muylaert tem, aliás, uma nova longa-metragem em gestação: Geni e o Zepelim.

Dada a relevância da cineasta nos debates sobre identidade e representatividade, a sua investigação sobre o sentimento de pertença regressa agora ao grande ecrã no Brasil, integrada na secção Cinema Circulação do Festival do Rio, cuja meta é ocupar salas de bairro onde o cinema local raramente chega — sobretudo aquele de tom mais experimental ou político.

É o CineCarioca Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro — recentemente integrado como novo pólo de projeção da maratona cinéfila brasileira — que acolherá Mãe Só Há Uma nesta terça-feira, às 18h00. Antes disso, o espaço exibirá Meu Sangue Ferve por Você (às 16h00) e Saudade Fez Morada Aqui Dentro (às 18h00) na segunda-feira.

Com uma comicidade mais abrasiva do que o habitual no universo de Muylaert, Mãe Só Há Uma centra-se no processo de auto-reinvenção do jovem Pierre (Naomi Nero), um rapaz queer cuja rotina é virada do avesso quando descobre que a sua mãe, Aracy (Dani Nefusi), o raptou ainda em bebé. A revelação é seguida por outro choque: os seus pais biológicos, Matheus e Glória (interpretados por Matheus Nachtergaele e pela própria Nefusi, num jogo edipiano de espelhamento de papéis), querem levá-lo para casa e dar-lhe o carinho que ficou suspenso. De imediato, insistem em chamá-lo pelo nome com que teria sido batizado: Felipe. O nome torna-se mais do que um ruído — é o prenúncio de uma crise.

Neste ensaio sobre o que significa ser autêntico, Matheus e Glória são retratados como figuras conservadoras, de atitudes machistas e hábitos no limite do kitsch. Ainda assim, não são caricaturas: são pessoas que erram, que amam, que se descontrolam — e que funcionam como instrumentos através dos quais Muylaert desmonta as hipocrisias das convenções sociais. A presença do irmão mais novo, Joca (o excelente Daniel Botelho), é crucial na adaptação do protagonista à nova realidade que se lhe impõe. A sua presença em cena é fundamental para desarmar a intolerância. A câmara, quase epiléptica, que conta esta história é fruto do engenho da diretora de fotografia Bárbara Alvarez.

As atividades do CineCarioca Penha no Festival do Rio encerram-se na quarta-feira, com Alemão 2 (2021) e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014). O evento termina a 12 de outubro.

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