‘L’Étranger’, de Ozon, gera expetativas em Donostia

(Fotos: Divulgação)

Há 25 anos, desde a exibição de Sous le Sable no Teatro Kursaal, o Festival de San Sebastián tem visto no parisiense François Ozon um verdadeiro “queridinho”, algo que mais uma vez se confirma com o facto de o seu novo exercício autoral – talvez o mais arriscado da sua obra – L’Étranger ter sido o primeiro filme do certame espanhol deste ano a esgotar todos os bilhetes logo na primeira chamada para o público. Nem mesmo potenciais candidatos aos Óscares, como Un Simple Accident, despertaram procura semelhante. A produção será exibida na terça-feira, na secção Perlak.

Existem muitos cinemas dentro do cinema francês, mas o que talvez me diferencie é o interesse pelas pequenas situações do quotidiano: elas engrandecem qualquer pessoa”, afirmou o cineasta de 57 anos ao C7, em Donostia, há um ano, quando foi distinguido com o prémio de Melhor Argumento por Quand Vient L’Automne (Quando Chega o Outono).

A conquista da Concha de Ouro, em 2012, com Dans la Maison (que vendeu cerca de 1 milhão de bilhetes em França), ampliou o seu reconhecimento no País Basco, que agora abre as suas vitrinas à adaptação que o realizador fez do romance homónimo e de forte carga filosófica de Albert Camus (1913-1960).

O livro escolhido, O Estrangeiro (1942), foi adaptado ao teatro em Portugal no início dos anos 2000 e reconfigurou a carreira do ator Guilherme Leme Garcia. Já em 1967, tinha sido levado ao cinema por um mestre, Luchino Visconti (1906-1976), com Marcello Mastroianni (1924-1996) como protagonista.

Em 2024, em entrevista ao C7nema em solo espanhol, Ozon antecipava já detalhes do projeto: “Costumo sonhar com aquilo que estou a filmar e, nos sonhos, quase sempre, surgem-me soluções para o que planeio fazer”, confidenciou o cineasta.

“L’Étranger’ está na mostra Perlak


Fiel a Camus, o seu L’Étranger estreou na competição pelo Leão de Ouro em Veneza, no início do mês. A trama decorre em Argel, em 1938, onde Meursault, um funcionário discreto e modesto na casa dos trinta, comparece ao funeral da mãe sem derramar uma lágrima. No dia seguinte, envolve-se num romance casual com uma colega, Marie, e retoma rapidamente a sua rotina, sem enfrentar o luto. Contudo, a sua vida quotidiana é logo perturbada pelo vizinho, Raymond Sintès, que o arrasta para os seus negócios obscuros — até que, num dia de calor extremo, ocorre um acontecimento trágico numa praia. Quem conhece Camus (ou as versões anteriores do seu best-seller) sabe tratar-se da morte de um árabe. O tema, associado a um país como a França, reabre a ferida da xenofobia.

Ao seguir este caminho, apoiado no carisma do ator Benjamin Voisin (com quem já trabalhara em Verão de 85), no papel de Meursault, Ozon envereda por um terreno político distinto daquele que habitualmente explora através da sua estética queer (a luta contra a intolerância e a homofobia). Já o fizera em 2019, com Grâce à Dieu, denunciando abusos sexuais cometidos por padres católicos — obra que lhe valeu muitos inimigos na Igreja, mas que catapultou a sua carreira para um patamar diferente de prestígio, coroado com o Grande Prémio do Júri da Berlinale.

Não estou preocupado em ganhar o Óscar, nem espero reconhecimento de prémios. A minha preocupação mais genuína é proporcionar ao público uma experiência inesperada em cada filme. Gosto do set, adoro trabalhar, e por isso estou sempre ocupado a criar”, afirmou Ozon ao C7nema em San Sebastián, quando L’Étranger ainda estava em fase de gestação.

O Festival de San Sebastián decorre até ao dia 27.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/byoc

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