“A vida é engraçada, trágica, louca” — Schnabel fala em Veneza da sua tragicomédia “In the Hand of Dante”

(Fotos: Divulgação)

De regresso ao Festival de Cinema de Veneza, onde exibira anteriormente Before Night Falls (2000), Miral (2010) e At Eternity’s Gate (2018), Julian Schnabel apresentou finalmente In the Hand of Dante, projeto no qual trabalhava há quinze anos. “Na altura tinha feito Before Night Falls, com Johnny Depp, e ele mostrou-me alguns livros. Disse-me: ‘Escolhe um e fazemos um filme’. Eu escolhi justamente o mais impossível de adaptar. Comecei a trabalhar nisso. A vida foi passando, e há cerca de nove anos as coisas mudaram, mas Nick Tosches ainda estava vivo. Escrevi o guião, ele leu e adorou. O Johnny já não estava envolvido, mas o Oscar leu o texto e disse-me: ‘Se fizeres isto, eu sou o teu homem’. E aqui estamos”, afirmou o cineasta hoje no Lido, logo após a primeira exibição do filme à imprensa.

Filmado em locais históricos de Itália, In the Hand of Dante adapta o romance homónimo de Nick Tosches, cruzando géneros — noir, tragédia e comédia absurda — enquanto entrelaça diferentes linhas temporais. A primeira acompanha Dante Alighieri no século XIV, retratando o poeta enquanto escreve A Divina Comédia. A segunda transporta-nos para 2001, quando um manuscrito supostamente escrito pelo próprio é descoberto na Biblioteca do Vaticano e submetido a um elaborado processo de autenticação. “Para mim é uma tragicomédia”, explicou Schnabel. “A vida é assim: engraçada, trágica, louca. Não quis fazer uma tese sobre a Divina Comédia, mas mostrar a sua atualidade. Toda a arte, quando a vemos, traz-nos ao presente. Caravaggio, hoje, é presente. O mesmo com Dante. A arte transgride a morte. A obra existe num presente eterno.

Protagonizado em duplo papel por Oscar Isaac, que regressa às telas de Veneza depois de Frankenstein, de Guillermo del Toro, o filme reflete o olhar particular de Schnabel, sempre ligado à pintura. O realizador admitiu aos jornalistas: “A minha perspetiva vem da pintura. Vejo para lá da moldura. O que não está no quadro, não existe. E o mesmo no cinema: não fazemos filmes para vender, mas para ver. Se amanhã desaparecer, o que fica é a obra. E, no set, deixo-me contaminar pelos atores. Não é proteger uma ideia fixa, é sangrarmos juntos. Isso é muito satisfatório.”

Para Oscar Isaac, o que mais o atraiu no projeto foi precisamente a aparente impossibilidade de ser filmado: “Acho que é isso que nos atrai nestes projetos — perseguir o sonho impossível, o mistério. Li o guião sem saber como poderia ser realizado, e isso era excitante. Além disso, o Julian é um visionário, diferente de qualquer outro artista a trabalhar hoje. Mergulhar num trabalho tão expressionista era uma ideia intoxicante.

Oscar Isaac e Gal Gadot

Questionado sobre os apelos a boicotar a presença de Gal Gadot, também no elenco, Schnabel recusou alongar-se sobre o tema, mas respondeu: “Não há razão para boicotar artistas. Escolhi os atores pelos seus méritos e fizeram um trabalho extraordinário. Prefiro que falemos sobre o filme em si, não sobre esse assunto.” Recorde-se que o realizador já tinha abordado no passado a questão palestiniana em Miral.

Com 150 minutos de duração, In the Hand of Dante enfrentou meses de pressão por parte dos financiadores para ser encurtado. Porém, graças à insistência de Schnabel e ao apoio de Alberto Barbera, diretor artístico do festival, a versão agora apresentada é a integral: longa, parcialmente em preto e branco, e sem concessões.

O filme conta ainda com a participação de dois nomes lendários: Martin Scorsese e Franco Nero. “O Marty é um grande amigo, sempre me apoiou. O que ele diz no filme é essencial. Não é atuação, é genuíno. A cena dele com o Oscar foi pura emoção. O Franco Nero apareceu quase como extra, mas trouxe uma presença incrível. Tivemos também muitos atores italianos extraordinários”, sublinhou Schnabel.

In the Hand of Dante está em competição pelo Leão de Ouro. O Festival de Veneza decorre até 6 de setembro e contará ainda com uma homenagem ao cineasta, a quem será entregue um prémio de carreira.

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