My Father and Qaddafi: memória, justiça e identidade na Líbia

(Fotos: Divulgação)

Nascido de uma experiência dolorosa que marcou a sua vida familiar, em My Father and Qaddafi, Jihan K recompõe a figura de um pai de quem mal guarda memórias — Mansur Rashid Kikhia, um advogado de direitos humanos, ministro dos Negócios Estrangeiros da Líbia e embaixador junto das Nações Unidas. 

Depois de integrar o regime de Kadhafi, cada vez mais brutal, desertou do governo e tornou-se um líder pacífico da oposição. Para muitos, Kikhia era uma estrela em ascensão que poderia substituir Kadhafi. Contudo, em 1993, quando a cineasta tinha apenas 6 anos, o pai desapareceu do seu hotel no Egito. A mãe de Jihan, Baha Al Omary, procurou-o durante dezanove anos, até que o corpo foi encontrado num congelador próximo do palácio de Kadhafi.

Jihan K, Baha Sobhi Al Omary (Credits J. Salvi, La Biennale di Venezia – Foto ASAC) 

Esse intervalo – enquanto se procurava por ele – prolongou um sentimento de irrealidade”, disse Jihan K em Veneza. “A guerra civil aprofundou a queda e afastou-me da Líbia. Fazer o filme foi um ato de justiça para o meu pai e uma homenagem à minha mãe e à família — a passagem de espectadora a protagonista ativa, tentando dar sentido ao que aconteceu e partilhá-lo com o mundo”.

Através de encontros com familiares, colegas do pai e arquivos históricos, a busca de Jihan pela verdade transforma-se numa curiosidade mais profunda, aproximando-a tanto do pai como da sua identidade líbia. “Ao reconstruir o retrato do meu pai, imaginei as conversas que gostaria de ter tido com ele. O filme tornou-se também a minha aula sobre o último século do país. Não quis uma análise académica; quis compreender e mostrar a essência do país, responder a perguntas básicas: por quê o rapto? Que rivalidades existiam? Onde começa a ferida? Para mim, a ocupação italiana e o genocídio criam o terreno que explica Kadhafi — produto do contexto líbio”.

My Father and Qaddafi

Questionada sobre o trabalho da filha, Baha Al Omary mostrou-se orgulhosa com o documentário e confessou que receou que Jihan não conseguisse concluir o projeto, tamanha era a exigência. “Acompanhei-a de perto e comovi-me muitas vezes — lembro-me dela, em criança, dizer que amava muito o pai (…) Depois do que aconteceu, fiquei sozinha com quatro filhos, com medo do que viria. No coração, sabia que Kadhafi estava por trás. Tive de decidir: permanecer na dor à espera de ajuda ou transformá-la em algo que nos fortalecesse. (…) Sou uma mulher comum, mãe e artista, muito emotiva e espiritual. Chorei — mas sozinha. Diante dos meus filhos, quis mostrar firmeza e verdade ”.

Exibido em Veneza, fora da competição, My Father and Qaddafi equilibra o íntimo e o coletivo, algo que a cineasta afirma ter conseguido recorrendo apenas a uma coisa: contar a verdade. “A minha mãe comprou uma câmara pouco depois do desaparecimento do meu pai; o meu irmão, tão importante como eu no filme, registou momentos muito íntimos. Usei esse “tesouro” de arquivos e também imagens que filmei com o telemóvel. Quis um gesto honesto, não um percurso calculado: apresentar-me a quem não conhecia — amigos e colegas do meu pai — sem invadir o espaço deles. Misturei materiais e aceitei as contradições da minha vida em vez de “polir” tudo”.

O Festival de Veneza termina a 6 de setembro.

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