Com Francis Ford Coppola e Alexander Payne na audiência, “Queen Kelly” revive no Lido

(Fotos: Divulgação)

O Festival Internacional de Cinema de Veneza de 2025 contou esta noite com a exibição um dos mitos mais fascinantes da história do cinema: Queen Kelly (1929), de Erich von Stroheim, com Gloria Swanson, apresentado numa nova versão que incorpora materiais inéditos.

Exibido na Sala Darsena do Lido, com acompanhamento musical ao vivo da Syntax Ensemble sobre partitura original de Eli Denson, a sessão ficou marcada pela presença inesperada de Francis Ford Coppola, que foi recebido pela audiência com uma longa ovação de pé. Além do realizador de Megalópolis, estava também presente na sala o presidente do júri da edição 2025 do Festival de Veneza, Alexander Payne.

Esta exibição em Veneza sucede a outra de 1985, onde o mesmo arquivista, Dennis Doros, apresentou uma primeira reconstrução do filme. Quarenta anos depois, regressa com a Milestone Films  – cujo lema é “gostamos de mexer com o cânone” – àquilo que define como uma “reimaginação melhorada”, criada a partir de negativos de nitrato, fotografias e documentos guardados em instituições como o George Eastman Museum e a Library of Congress. O resultado, digitalmente restaurado e com novos intertítulos assinalados, ofereceu ao público de 2025 a experiência mais completa possível desta obra inacabada.

Queen Kelly

Queen Kelly parecia destinada ao sucesso: Swanson, estrela maior de Hollywood, e o seu amante e financiador Joseph P. Kennedy, contrataram Stroheim, o realizador mais célebre da época, para filmar um projecto independente e ousado. No entanto, rapidamente, tudo se transformou em pesadelo. Rodado em sequência, o filme foi interrompido quando Stroheim filmou apenas algumas das polémicas passagens africanas, carregadas de erotismo e decadência. Swanson encerrou a produção, e Queen Kelly juntou-se ao mutilado Greed como símbolo do conflito entre a sua visão artística e os limites da indústria.

A história decorre no reino fictício de Cobourg-Nassau, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. A vaidosa e cruel Rainha Regina V (Seena Owen) vigia o noivo, o príncipe Wolfram (Walter Byron), mas este apaixona-se por Patricia Kelly (Swanson), uma órfã criada num convento. Descoberta e humilhada pela rainha, Kelly regressa ao convento após tentar o suicídio, até ser chamada a África Oriental Alemã, onde herda um bordel em decadência e é pressionada a casar com o dono sifilítico (Tully Marshall).

O destino do filme ilustra bem a carreira turbulenta de Stroheim. Visto por uns como picuinhas, por outros como meticuloso, o realizador impunha figurinos de época fiéis, cenários autênticos e múltiplas repetições “As suas personagens têm fetiches… e você também tem um por filmagens (que se amontoam)!”, disse-lhe uma vez Irving Thalberg, resumindo o choque entre a sua exigência artística e os orçamentos dos estúdios. Queen Kelly, interrompido em plena rodagem, marcou o fim da sua carreira como realizador em Hollywood.

Mas Stroheim sempre defendeu a sua integridade criativa: “Nunca regateei… sempre lhes disse a verdade tal como a via. Gostassem ou não, era a verdade… e essa consciência limpa é a minha recompensa”, afirmou. Rejeitou a ideia de ter tido conflitos com Swanson: “As nossas relações foram sempre íntimas e amigáveis… ela foi a estrela mais encantadora e maleável com quem trabalhei”. Para o realizador, o verdadeiro culpado foi a chegada do sonoro: “A exibição do primeiro filme falado de Al Jolson parou a produção de Queen Kelly. Não existia outra razão”.

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