Cerca de 45 anos depois de levar a Cannes – com alguma polémica na premiação – “Apocalipse Now”, Francis Ford Coppola regressou à Croisette com “Megalopolis”, um projeto tão gigantesco e ambicioso que os 120 milhões de dólares que gastou do próprio bolso só podem ser vistos como um risco alucinante, com diversas complexidades no que torna a um eventual retorno financeiro.

É que apesar do elenco estar minado de nomes reconhecíveis do cinema norte-americano, como Adam Driver, Aubrey Plaza, Laurence Fishburne, Giancarlo Esposito, Shia Labeouf e até mesmo Dustin Hoffman e Jon Voight, e das ideias gerais apontarem para temas apetecíveis como a eterna luta entre os visionários e os tradicionalistas, além de diversos jogos de poder, corrupção e os novos e velhos populismos, a forma como Coppola maneja toda a sua alegoria e os peões do seu jogo pessoal (sim, é um filme bem pessoal) é com um tal aparato e fanfarra que o espectador comum vai acabar abalroado, sem saber como digerir toda a informação, dificultando a apetência no box-office.

Esquecendo essa questão, porque ela não é relevante como objeto artístico, esse mesmo aparato e grandiloquência do discurso e personagens leva a que grande parte de tudo o que enche o ecrã e invade os tímpanos passe omisso ou sufoque quem o assiste.

Tudo se passa num espaço urbano denominado de “Megalopolis”, que usa Nova Iorque como a “Nova Roma”. É neste local físico, mas também figurado (como Hollywood o é), que um arquiteto visionário com a capacidade de parar o tempo, Cesar Catilina (Adam Driver), vê as suas ideias urbanísticas revolucionárias serem contrariadas por um político, Franklyn Cicero (Esposito), que comanda o município com ideias conservadoras. É a partir daí que Coppola cria uma história narrada ao melhor estilo shakespeariano (há referências a Hamlet e A Tempestade), inspirando-se nas conspirações catilinárias que tentaram abalroar o Império Romano para assumir o poder da República. Com telhados de vidro no que diz respeito à esposa que morreu, César  – que criou um material de construção inovador e polivalente chamado Megalon -vive um flirt proibido com a repórter da TV Wow Platinum (Aubrey Plaza), prestes a casar com o homem mais rico da região (Voight), que o vai deixar vulnerável a ataques externos, sendo amparado nesse processo pela filha de Franklyn, Julia (Nathalie Emmanuel), com quem começa a ter uma relação contra a vontade do pai. 

Pelo meio, quer a personagem entregue a Aubrey Plaza, quer a de Shia Labeouf, adicionam doses de manipulação e conspiração nos bastidores, mas também de humor, que esbate, mas nunca faz esquecer, uma obra com um claro discurso político e social sobre o mundo em que vivemos, onde não escapa a arte, já que frequentemente os artistas visionários são encostados às cordas pelo pragmatismo de uma indústria que pensa principalmente em faturar.

No visionamento em Cannes, ocorrido na tarde de 16 de maio, houve ainda um momento caricato, mas extremamente feliz, quando uma pessoa na audiência subiu ao palco e encenou questionar o César que vemos no ecrã, tendo este respondido. A ideia de levar um cinema-vivo a Cannes é brilhante, mas demonstra a extravagância e os riscos que Coppola toma nesta espécie de herança em que se pensa no legado que se deixa. 

Em oposição, alguns momentos melosos a roçar a pirosice esbatem um pouco com a generalidade do tom de grande arte com mensagem política que o filme possui a toda linha e que se materializa no último momento do filme, quando Coppola apresenta as bases da nova “constituição” desta “Nova Roma”.

Por tudo isto, “Megalopolis” é frequentemente espetacular, mas demasiado sobrecarregado e espalhafatoso, alienando mais que absorvendo o espectador.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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