“Terra Estrangeira” chega aos 30 anos a desbravar novas fronteiras

(Fotos: Divulgação)

Chama-se de Retomada o período de 1995 a 2010 em que o cinema brasileiro reiniciou a sua produção, abrindo novas frentes estéticas, após o fim da distribuidora Embrafilme, que nasceu em 1970 e foi fechada, por ordem do governo Fernando Collor, em 1990, numa desarticulação que paralisou a concretização de longas-metragens naquele país. Logo que o Brasil teve meios (leia-se editais de fomento e mecanismos legais como a Lei do Audiovisual) para reviver a indústria, Terra Estrangeira ganhou as telas de diferentes festivais internacionais, o que assegurou à sua pátria um filme de culto, num investimento em narrativas policiais (e sociais). É um sucesso que comemora os 30 anos da estreia em 2025. A realização foi feita a quatro mãos pela diretora de arte e cenógrafa (então um mito no teatro) Daniela Thomas e por (uma ainda iniciante) Walter Salles, que ganhou o Oscar este ano por Ainda Estou Aqui. A sua consagração na festa da Academia de Hollywood animou a Filmin.Pt a abrir espaço na sua programação para um marco noventista da América do Sul, que tem Portugal no seu lastro, como arena para a trama. Na sua nação, a película pode ser vista hoje na Netflix.

Este thriller de 1995 narra a viagem que leva Paco (Fernando Alves Pinto) para além dos limites da sua insatisfação com o país de origem, aos braços de Alex, papel de Fernanda Torres, que ganhou o Globo de Ouro, em janeiro, pelo desempenho no já citado Ainda Estou Aqui, que vendeu 5,8 milhões de ingressos. Ele hoje pode ser visto no Globoplay.  


Calcados quase que permanentemente no binómio “desterro / reencontro”, os filmes que tornaram Salles um dos mais influentes nomes do cinema latino-americano da atualidade encontraram o seu combustível de arranque no périplo ibérico de um jovem que traduzia as angústias de toda uma geração. No caso, ele fala da geração que foi atropelada pelo turbilhão collorido, ou seja, o confiscar da poupança pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992). Confisco esse que reduziu a pó o sonho democrático dos mesmos brasileiros que ajudaram eleger o Caçador de Marajá alagoano ao Palácio do Planalto.

Existe todo um cabedal político servindo de óleo diesel ao tanque de Terra estrangeira, mantendo o filme vivo, desde a sua trajetória inicial pelas salas de exibição, entre 1995 e 1996. Uma redonda reflexão sobre o sentimento de desilusão para com o Brasil garantiu a essa produção uma eternidade para além da sua requintada experimentação narrativa, marcada por um diálogo com o thriller noir americano dos anos 1940 e 50. Pelo menos na filmografia da Retomada, só um outro filme teve tanta potencialidade ao tirar um raio X da desesperança geracional: o doloroso O Príncipe (2002), de Ugo Giorgetti. Percebe-se como os filmes marcantes do período custaram a criar escola, a mobilizar esforços na mesma rota.

Eleito Melhor Filme Ibero-americano no Festival Cinematográfico Internacional do Uruguai e vencedor do Grande Prémio do Público no Paris Internacional Film Forum, Terra estrangeira não ficou totalmente sozinho, em parte pelo facto de Walter estar afinando à ontologia do êxodo a cada novo trabalho. Central do Brasil (Urso de Ouro de 1998), Abril Despedaçado (de 2001) e Diários de motocicleta (de 2004) são projetos hermanos na estrada da arte que, sob tintas beatniks, aos moldes do On the road literário de Jack Kerouac, tentam entender a agonia existencial que impulsiona os homens a imitarem Ulisses numa odisseia pessoal em busca de sentido. Em todos eles, Salles volta as lentes para pessoas que, como Paco, parecem perdidas nos limites económicos, éticos e até familiares da sua região de origem. Na distância está a liberdade. Onde há a liberdade, deve haver a esperança. Algo que em “casa” – sobretudo se essa casa for o Brasil de Collor – acabou. Surpreendente pelo seu ritmo frenético, que parece decalcado de Kiss Me Deadly(1955), de Robert Aldrich, pela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho, Terra Estrangeira ganha força com o passar dos anos.

As filmagens de “Terra Estrangeira”, com Walter Carvalho (à lente da câmera) e Daniela Thomas, ao lado de Walter Carvalho (de boné)

Referências que vão da mais rígida gramática policial, na linha dos polars de Jean-Pierre Melville (tipo Le Samourai), às divagações sobre incomunicabilidade e busca da identidade de Michelangelo Antonioni. A construção das sequências de fuga do casal e as intromissões violentas dos gangsters que aliciam Paco e eliminam Miguel (Alexandre Borges), o namorado de Alex, fogem de qualquer lugar-comum das histórias calcadas em tensão. O suspense mantido na realização de Salles e Daniela Thomas consegue eletrizar o olhar sem obstruir a razão, que associa a luta de Paco e Alex para sobreviver à realidade dos brasileiros que enfrentaram o inferno solitário do exílio, em busca de uma vida melhor. Há uma poesia por traz das tomadas calcadas por Walter Carvalho, que gera sinestesia ao domar os fantasmas de influências que poderiam pasteurizar os planos e lhe esvaziar o estilo. Todo o investimento em ensaios de base teatral ajudou a integrar as questões pessoais de Alves Pinto ao olhar poético de Paco, que vislumbra o horizonte luso com as pálpebras românticas dos sonhadores. Numa harmónica interação de atores, Salles e Daniela aportaram numa confluência de culturas: brasileira, angolana, portuguesa, espanhola. Há muitos sotaques, mas todos estão conjugando o mesmo verbo: “resistir”.

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