Dia 12 de junho é a efeméride anual dos namorados do Brasil, marcado no calendário como o Valentine’s Day sul-americano de língua portuguesa, e motor de uma mostra no Rio de Janeiro, nas salas do Grupo Estação. É exibido “In The Mood For Love” (2000) no evento, marcado de 11 a 18 deste mês, e batizado de “Eu Sei Que Vou Te Amar”, em referência à longa-metragem homónima de Arnaldo Jabor (1940-2022) indicada à Palma de Ouro de 1986 e laureada lá em Cannes pela Melhor Atriz, para Fernanda Torres. Essa pérola do Jabor está na agenda dessa retrospetiva assim como o “Brief Encounter” (1945), de David Lean (1908-1991). A abertura fica por conta de “Notting Hill” (1999), de Roger Michell, e de “Orgulho e Preconceito” (2005), de Joe Wright. O maior tesouro dessa seleção é o resgate de uma produção brasileira que está por completar 60 anos e carrega o título de comédia romântica nº1 do seu país: “Todas As Mulheres Do Mundo”, de Domingos de Oliveira (1935-2019). Lançado em 1966, a longa-metragem é centrada na história de amor entre o jornalista e dramaturgo Paulo (Paulo José) e a professora Maria Alice (Leila Diniz), numa ciranda de flirts e traição. É um dos raros exemplares do género a unir sucesso popular e prestígio de crítica. Foi laureado com o troféu Candango do Festival de Brasília de Melhor Filme, com outros quatro prémios e mais uma menção honrosa para Leila. O projeto nasceu como um gesto de “volta para mim” de Domingos para a atriz, numa reação desesperada ao fim do relacionamento entre eles. O pleito não deu certo, mas rendeu uma bela amizade e um filme inesquecível.
“O filme mostrou-me que todos os amores são iguais e completamente diferentes, expresso pela nossa solidariedade com os sofrimentos do outro”, disse Domingos ao C7nema antes de morrer. “Quando o filme foi finalizado, Leila e eu já éramos amigos e, sem dor alguma, tomamos um porre (bebedeira)”.

18, no Estação NET Botafogo, às 21h (esses horários são do Brasil)
Laureado em múltiplos eventos por “BR716”, com o qual venceu o Festival de Gramado de 2016, Domingos dizia ser movido por um sentimento de grupo. “Os jovens de hoje são bem mais velhos”, disse ele, que lançou um manifesto chamado “B.O.A.A.”, o “Baixo Orçamento e Alto Astral”, talhado em meio à batalha dos editais da Lei do Audiovisual. Elas eram o arranque da sua obra audiovisual, paralela à sua efusiva criação teatral, mas, na falta de suporte estatal ou de empresas privadas, a adesão dos amigos ajudava e unia profissionais em prol do sonho de ver nova longas-metragens nos écrans.
Depois de um hiato estimado em 18 anos sem filmar para o cinema, dedicado à TV Globo e aos palcos, Domingos saiu da seca em 1998, com “Amores”, a longa vencedora do Kikito de Júri Popular em Gramado que abre uma porteira para pastos verdíssimos onde o realizador carioca viria a semear a essência estética de uma nova fase dramatúrgica. A definição precisa para esse novo ciclo, que ganhou mais viço entre 2002 e 2010, foi definido com precisão pelo crítico Carlos Alberto Mattos na sua resenha (da dramédia “Juventude”) feita para o Segundo Caderno do jornal O Globo, no Natal de 2008, ao definir a estética de Domingos como um ménage à trois que funde fazer cinema, fazer teatro e viver. Trocado em miúdos, a obra dele passa a ser um amalgama indissociável de vivências de palco (em especial a sua incursão na série de encenações musicais “Cabaré Filosófico”), lutas para seguir a filmar e modos de amar com liberdade e paixão. Esse era o ponto central de todas as histórias por ele contadas nesse perímetro de tempo, sempre coroado de láureas e sempre delineado pela lapidação da intimidade do realizador com um léxico avesso ao uso de película. Era no digital que os diálogos do Seu Oliveira destilaram a sua acidez máxima numa náusea celebrativa em relação às artimanhas do arlequim chamado Acaso.
“Todas As Mulheres Do Mundo” nasceu em película e ensinou gerações na sua pátria como se faz uma love story com brasilidade. O argumento é baseado nos contos nos contos “A Falseta” e “Memórias de Don Juan”, de Eduardo Prado, e se divide em seis partes: “A conquista“, “Primeiras consequências“, “O bolo“, “A reconciliação“, “Outro bolo” e “Uma revelação“. Mário Carneiro (1930-2207) assina a fotografia.

