O uso da expressão “violento” como adjetivo para “Un Simple Accident” é uma prática discursiva que o iraniano Jafar Panahi contesta, não só em defesa da poesia que reside em seu novo exercício pelas veredas da ficção, mas por razões políticas inerentes à representação do real. “É surreal colocar um artista na cadeia da crença de que ele será silenciado, pois ele sai de lá cheio de ideias“, disse o realizador de 64 anos, com a certeza de que os holofotes alcançados na Croisette já começaram a atiçar os censores do Irão.
Pavimentado sobre causos que Panahi colheu em uma das suas detenções, numa condenação imposta pelo regime iraniano em retaliação às sua obra, “Un Simple Accident” narra um plano de vingança de um grupo de pessoas que foram torturadas a partir da ação de um agente de estado. Eles o capturam e submetem-no a um inquérito cercado de agressões. Até uma noiva em núpcias junta-se a esse ato.
“Quando fui censurado e detido, os meus amigos tinham a certeza de que iria desistir e largar o cinema, mas eu não sei fazer outra coisa que não seja filmar. Nem trocar uma lâmpada sei. Um dia destes, na minha casa, tive que perguntar à minha mulher onde guardamos a manteiga, pois nem isso eu sei e acredito no que ela me diz. Acredito que, no cinema, preciso procurar saídas“, disse o realizador de “O Balão Branco” (1995) e “O Círculo” (2000) em Cannes. “Ao rodar filmes, não faço nada de heroico, não em relação ao que qualquer iraniano faz. O meu povo vive a experiência da prisão por ordens do governo há pelo menos 40 anos. É quase meio século”.
O Festival de Cannes segue até o dia 24.

