“Ainda Estou Aqui” à conquista do streaming

(Fotos: Divulgação)

Ao mesmo tempo em que celebra os 40 anos de “A História Oficial” e discute saldos da política militar na América do Sul nos filmes do Bafici – Festival de Buenos Aires, a Argentina enche as suas salas de projeção para ver “Ainda Estou Aqui” nas sessões matinais e vespertinas deste domingo em que o filme de Walter Salles estreia no streaming. Ele entra a 6 de abril, no Brasil, na plataforma Globoplay, endossado por um Oscar, o único que o Brasil ganhou em toda a sua História, por uma longa-metragem. Vendeu 5,8 milhões de ingressos em solo brasileiro e faturou US$ 35,5 milhões nas bilheteiras internacionais, à força dos 42 países onde foi lançado, incluindo Alemanha, Argentina, Austrália, Bélgica, Bolívia, Canadá, Chile, Colômbia, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, França, Hungria, Inglaterra, Irlanda, Israel, Itália, México, Nova Zelândia, Paraguai, Peru, Polónia, Portugal, República Dominicana, Roménia, Turquia, Taiwan, Uruguai e Venezuela. As próximas estreias acontecem na China (17/05), Japão (agosto), Dinamarca (2/10) e Noruega (03/10). Continua em cartaz nos Estados Unidos, onde estreou no dia 17 de janeiro, e já arrecadou cerca de US$ 6,5 milhões.

Tem pela frente agora o Prémio Platino, uma das láureas mais disputadas do universo ibero-americano, na luta pelo prémio de Melhor Filme. Também nos Platinos, o drama baseado na literatura de Marcel Rubens Paiva compete na categoria de Melhor Atriz, representado por Fernanda Torres, e Melhor Realização, que pode render um troféu para Walter Salles, além de concorrer aos mimos do júri popular. A cerimónia de premiação acontece no dia 27 de abril, no Palácio Municipal IFEMA Madrid, na Espanha, com transmissão ao vivo pela plataforma SmartPlatino TV.

“Ainda Estou Aqui” conquista o Oscar de Melhor Filme Internacional

Foi o poeta Alex Polari de Alverga, nas páginas de “Inventário de Cicatrizes”, quem levantou a bola que volta a rolar agora, desta vez nos ecrãs, com “Ainda Estou Aqui”. Segundo o bardo que radiografou os Anos de Chumbo: “Hoje faz-se sofrer a velha dor de sempre/ hoje faz-se morrer a velha morte de sempre/ com muito maior urbanidade,/ sem precisar corar as pessoas bem educadas,/ sem proporcionar crises histéricas nas damas da alta sociedade/ sem arrefecer os instintos/ desta baixa saciedade”. O que doeu lá atrás, de 1964 a 1985, deixou feridas que foram reabertas com o golpe de 2016 e escancaradas com a eleição de Bolsonaro. Esses dois episódios fizeram com que Walter interrompesse o seu hiato com a ficção de longa-metragem, iniciado depois da estreia do belíssimo “Na Estrada” (2012), e reagisse. A sua reação – em forma de um filme impecável – é um convite a catarses históricas e, para além delas, uma chamada à reflexão acerca dos riscos que ainda cercam o avanço da sanha da ultradireita. Como escreveu Polari: “Hoje a coerência dos sistemas/ me parece ridícula”. A saída para evitar que o fantasma da ditadura encarne em um novo Messias aparece agora, em circuito, por meio de uma figura heroica: a advogada Eunice Paiva (1932-2018). O seu heroísmo foi o da autoimolação e o do combate: doou-se para dissipar névoas da tortura e das práticas de desaparecimento de ditos “subversivos” praticadas pelo Estado ao longo dos 21 anos em que o Brasil vestiu a farda verde oliva.

Celebrizada na literatura no romance “Ainda Estou Aqui”, escrito por seu filho, o já citado Marcelo Rubens Paiva (de “Feliz Ano Velho”), agora passa à fauna dos heróis de Walter. Há horas em que heróis são necessários, sobretudo quando a vilania se despe das subtilezas, como fizeram os bolominions, os acólitos do (falso) messias Jair Bolsonaro. No tempo de Collor, que gerou “Terra Estrangeira” (1995), o primeiro sucesso mundial do realizador (realizado em duo com Daniela Thomas) e hoje na Netflix brasileira, foi assim também.

Responsável por documentários como “Socorro Nobre” (1996) e “Krajcberg – O Poeta dos Vestígios” (1987), Walter nunca se desligou da Não Ficção e trouxe dela os dispositivos de investigação do real (e de incorporação de atores não profissionais) essenciais para a construção do seu filme mais famoso: “Central do Brasil”. Vencedor do Urso de Ouro da Berlinale de 1998, o (melo)drama sobre a professora Dora, que precisa deixar os subúrbios do Rio e ir para os confins do Nordeste com um órfão (Vinícius de Oliveira) a tiracolo, vendeu 1.186.859 ingressos em circuito nacional. Pelo mundo afora, faturou cerca de US$ 22 milhões, configurando-se como um dos maiores sucessos brasileiros no exterior. Foi de “Central…” que nasceu a chamada Nova Onda Latino-Americana, que revelou Alejandro González Iñárritu (“Amores Perros”), Pablo Trapero (“El Bonaerense”), Lucrecia Martel (“La Ciénaga – O Pântano”), Daniel Burman (“El abrazo partido”) e “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles. Muitos dos cineastas portenhos que passam pelo Bafici 2025 devem as suas carreiras ao que se experimentou durante a Nouvelle Vague portenha. Walter esteve sempre junto dela, atuando como parceiro e porta-voz de muitos talentos hermanos. Concorreu em Cannes com “Linha de Passe” (realizado em dupla com a supracitada Daniela Thomas) quando “Leonera”, de Trapero, disputava a Palma de Ouro, e fez de tudo para que o filme do colega fosse visto, bem discutido e respeitado.

Walter vê a América Latina como um espaço de resiliência histórico, de onde brotam gestos heroicos. A Eunice Paiva esculpida por Fernanda Torres, no limite preciso do transbordamento, é uma centelha de heroísmo. A sua batalha em “Ainda Estou Aqui” faz-se em nome do amor… primeiro pelo marido que “desapareceu” ao ser levado para depor… depois pelo ideal de um Brasil que não precisa mais silenciar. A sua cruzada foi escrita para as telas – a partir da prosa de Marcelo – por Murilo Hauser e Heitor Lorega, em argumento premiado no Festival de Veneza, em 2024.


A sua rotina de mãe de família feliz, com as filhas (Vera, Eliana, Nalu e Babiu) e o filho (Marcelo), é interrompida bruscamente quando os militares à paisana levam o seu companheiro, o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva (papel encarnado magistralmente por Selton Mello), para depor, sem explicações, e nunca mais dão notícias do seu paradeiro. Dali, ela precisa estudar Direito, tornando-se ativista, para detonar a pólvora da indignação.  Meticuloso (talvez sob a influência do que aprendeu ao filmar o documentário “Jia Zhangke, Um Homem De Fenyang”), Walter jamais deixar o pathos retesar a musculatura de “Ainda Estou Aqui” além da fronteira da comoção. Jamais resvala na frieza, mas não aquece a chama do que narra além dos limites da lucidez. Por isso, a direção de fotografia de Adrian Teijido mantém-se numa palete sempre branda, quase outonal. Produzido por Maria Carlota Bruno (de “No Intenso Agora”) e Rodrigo Teixeira (de “A Vida Invisível” e “O Farol”), esse drama conta com um trunfo artístico na montagem de Affonso Gonçalves. Parceiro habitual de Todd Haynes e Jim Jarmusch, Affonso assegura ritmo nos saltos temporais propostos pela adaptação de Lorega e Hauser. Consegue preservar um timbre comedido, que rasga o nosso coração nas sequências nas quais Fernanda Monetenegro está em cena, vivendo Eunice em fase mais idosa.

Ainda Estou Aqui” segue em cartaz em Buenos Aires na sala Gaumont, um dos centros nervosos do Bafici, que alimenta a brasilidade ao exibir “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro; “Minha Mãe É Uma Vaca”, de Moara Passoni”; “Vollúpya”, de Éri Sarmet e Jocimar Dias Jr.; e “Relâmpagos De Críticas Murmúrios De Metafísicas”, de Rodrigo Lima e Julio Bressane.

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