“Arte não é Coca-Cola”, diz Francis Ford Coppola

(Fotos: Divulgação)

Encarregado de encerrar a 48ª. edição da Mostra de São Paulo com uma projeção do controverso “Megalopolis” em uma cerimónia na qual vai receber o Prémio Leon Cakoff, Francis Ford Coppola louvou a força revolucionária da arte num colóquio que marcou a sua chegada ao Brasil. A conversa, mediada pela crítica Isabela Boscov, aconteceu no Teatro B32, zona oeste da geografia paulista, e foi promovida pela O2 Play, distribuidora que lança a produção de 120 milhões de dólares (financiada pelo próprio realizador, com dinheiro das suas vinhas) nas salas brasileiras, esta quinta-feira.

Questionava-me se, algum dia, quando ficasse velho, se seria capaz de reconhecer o meu estilo. Nós todos temos talento, mas nem sempre temos noção dos dons que temos. O meu dom foi a boa imaginação e a boa memória. Hoje, ao avaliar o meu estilo, percebo que queria fazer um épico romano. A América transformou-se numa nova Roma. Ela não sabe se quer ser uma república ou uma ditadura”, disse Coppola, hoje com 85 anos, recebido com uma ovação popular, antes da projeção de um clipe com a sua filmografia. “Fazer arte sem riscos é como fazer bebés sem sexo. Quem contrata os artistas é quem controla o mundo. Um dia, quem contratava os artistas era o Vaticano. Hoje é a publicidade”.

Em 2010, Coppola foi ao Rio de Janeiro para lançar “Tetro”, que se passa em Buenos Aires e marcou parceria entre o realizador americano e o compositor argentino Osvaldo Golijov, que assina a música original de “Megalópolis”, e fará uma suíte dela nos EUA, com a Filarmónica de Chicago, no dia 8 de novembro. “Osvaldo é um músico clássico, com a noção de ritmo, o que é essencial para um filme sobre o tempo”, disse o cineasta ao C7nema, em Cannes. “Arte é algo antigo que nos define. ‘Megalópolis’ é feito de um pedaço de cada filme que vi, desde a ‘Branca de Neve’”.

Em uma nova pergunta do C7nema, agora em São Paulo, Coppola relembrou do seu encontro com o cineasta baiano Glauber Rocha (1939-1981). “O Glauber viveu na minha casa em San Francisco e uma vez chorou, sem saber se um dia poderia voltar ao seu país. Foi uma honra conhecer o artista por trás de ‘O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro’ e de tantos grandes filmes. Ele acabou por voltar, mas morreu logo depois. Ele é parte de uma tradição rica de grandes filmes que é a linhagem do cinema brasileiro que revelou ‘Pixote’ e ‘Cidade de Deus’, um grande filme que inspirou uma sequência de ‘Megalópolis’”.

Em “Megalopolis” estamos numa América Moderna reimaginada com o nome de Nova Roma onde impera um conflito entre Cesar Catilina (Adam Driver), um arquiteto que procura um futuro utópico e idealista, e a sua oposição, Franklyn Cicero (Giancarlo Esposito), que continua comprometido com uma política conservadora.

Dividida entre eles está a socialite Julia Cicero (Nathalie Emmanuel), filha de Franklyn, cujo amor por César dividiu a sua lealdade, forçando-a a descobrir o que ela realmente acredita que a humanidade merece para o amanhã. Aubrey Plaza, Shia LaBeouf, Jon Voight, Laurence Fishburne, Talia Shire, Jason Schwartzman, Kathryn Hunter, Grace VanderWaal, Chloe Fineman, James Remar, DB Sweeney e Dustin Hoffman fazem também parte do elenco estelar.

Hoje em dia, os filmes são como ‘fast food’, querem que ele seja como a Coca-Cola, ou seja, algo que precisa ser gostado. Arte não é Coca-Cola”, disse Coppola. “Hoje, quando vês um filme, tudo depende da porta que vais abrir. As pessoas olham para o filme que acabei de fazer, todos sabem o quanto custou e, por isso, pensam que nunca vai resultar. Ele pode lucrar durante um longo tempo, como aconteceu com ‘Apocalypse Now‘. A questão é ajudar o público a encontrar a porta certa”.

A Mostra de São Paulo termina nesta quarta-feira, 30 de outubro.

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