“Talvez eu seja analógico”, diz Wim Wenders

(Fotos: Divulgação)

Ao ser laureado com um prémio honorário do Júri Ecuménico do Festival de Cannes, em maio, pelo conjunto de uma carreira na realização iniciada em 1967, Ernst Wilhelm Wim Wenders assumiu: “Nós, cineastas, não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar a imagem que fazemos do planeta”. Na ocasião, ele havia acabado a montagem do seu filme mais recente, a curta-metragem “Alguém Vem À Luz” (“Somebody Comes Into The Light”), realizado em paralelo às filmagens de Dias Perfeitos (“Perfect Days”, pelo qual concorreu ao Oscar), com o dançarino Min Tanaka.

Entre as mudanças mais radicais que sua obra proporcionou à forma como o audiovisual representa a realidade está a maneira de enquadrar o vazio existencial de um mundo que se despedia das filosofias modernas para entrar na pós-modernidade, o que se vê em “Paris, Texas”. A produção que rendeu ao realizador alemão a Palma de Ouro de 1984 está de volta às salas depois de ter sido restaurada digitalmente, com o negativo original 35mm aprimorado em 4K na L’Immagine Ritrovata, em Bolonha, com apoio financeiro do CNC. A restauração e a correção de cor foram realizadas na Basis Berlin Postproduktion, com apoio da Chanel e do Programa de Financiamento do Património Cinematográfico Alemão (FFE). A Mostra de São Paulo vai conferir esse processo numa sessão de gala esta noite, na Cinemateca Brasileira.

Cheguei a Cannes para projetar esse filme praticamente saído do laboratório onde a cópia foi revelada nas vésperas da exibição na seleção oficial e pensava se havia conseguido dar conta de uma reflexão sobre um tempo que se despedaçava”, disse Wenders ao C7nema na Croisette.

Paris, Texas abre com planos de desolação. No meio do nada, um homem magro, de terno escuro e boné de beisebol vermelho surge no calor escaldante do deserto entre os Estados Unidos e o México. O seu nome é Travis (papel de Harry Dean Staton). Ele bebe um último gole de água e segue em frente, obstinadamente, para uma região inóspita que os moradores chamam de “Parque do Diabo”. Travis pode parecer mudo e perdido, mas é movido pelo desejo de se reconectar com a família.

A moeda de troca do Presente é o ódio. Discursos de ódio têm sido a prática de diálogo do mundo. Já era assim nos anos 1980, mas essa perspetiva de polarização e intolerância ficou pior. Faço filmes sobre o amor para desafiar essa corrente. O amor exige doação, o que não é fácil. Cabe ao cinema olhar a vida com preocupações adultas e expor a intolerância. Tento dar espaço a histórias em que as rotinas do dia a dia se expressem poeticamente”, disse Wenders no jardim de um hotel em Cannes.

Palma de Ouro de 1984, “Paris, Texas” integra o cardápio dos filmes restaurados da Mostra de SP

Nos últimos 25 anos, Wenders apostou fortemente em expressões documentais e foi agraciado com indicações aos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood três vezes pelas suas incursões ao terreno da não ficção. Concorreu com Buena Vista Social Club (1999), no qual revisita a música cubana. Depois, foi à festa hollywoodiana com Pina (2011), sobre a coreógrafa Pina Bausch. Em 2015, chegou ao Brasil, realizando em dupla com Juliano Salgado O Sal da Terra, um trabalho fotográfico e antropológico sobre Sebastião Salgado. Há algum tempo que o artesão existencialista por trás de pérolas como Asas do Desejo (1987) não fazia uma ficção tão boa quanto Dias Perfeitos. O curioso é que sua entrada entre os nomeados à láurea de Melhor Filme Internacional de 2024 deu-se via Japão e não por veredas germânicas. É uma produção nipónica, falada em japonês e filmada em Tóquio em 17 dias. O protagonista, Koji Yakusho (visto em Babel), ganhou o prémio de Melhor Ator em Cannes. A personagem dele é a de um homem que limpa casas de banho públicas, ouve rock em fitas K-7, lê livros e gosta da sua rotina de vida. “Talvez eu seja analógico”, diz Wenders. “Sou dos tempos dos discos de vinil e ainda ouço rock’n’roll neles. Sou do tempo em que se ouvia o mesmo LP durante semanas. Depois ouvíamos um LP por dia. Houve tempos em que giravam dez LPs de manhã até à noite. O rock salvou a minha vida”.

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