‘Estou aqui’ e como a pobreza “é uma decisão política”

(Fotos: Divulgação)

Filmado durante a pandemia durante seis meses, Estou aqui () levou ao Doclisboa, inserido na Competição Nacional, a experiência do que foi a vida no pavilhão lisboeta transformado pela Câmara Municipal de Lisboa numa casa provisória para pessoas em situação de sem-abrigo, perante a pandemia de Covid.

A Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, onde decorreu a sessão esta segunda-feira, 21 de outubro, esteve longe de qualquer enchente, mas acompanhou com a mesma assertividade, ternura e esperança um programa que acolheu “de braços abertos” e “sem portas fechadas” todos os que ali recorreram durante o confinamento. “Decidimos fazer um filme sobre um programa que proporcionou um raio de esperança, mostrou que as coisas poderiam e deveriam ser diferentes, e que a mudança era possível”, disse a realizadora Zsófia Paczolay, que correalizou o filme com Dorian Rivière. “Era um espaço cheio de vida”, recorda.

“A pobreza é uma decisão política”, afirmou Maria Teresa Bispo, coordenadora do programa retratada neste documentário observacional, que, apesar de traçar um retrato geral de quem partilhou aquele espaço durante largos meses, se foca sobretudo na jornada de Tiago e Plácido, dois homens que ali viveram, mas cujos destinos divergiram. “Antes de mais, este projeto foi um trabalho de equipa”, explicou Teresa após a exibição do documentário. “Tínhamos muitas equipas a trabalhar connosco. Estava eu, associada ao Gabinete do Vereador Manuel Grilo, mas havia uma equipa de técnicos especiais, de médicos, enfermeiros e psiquiatras; uma equipa de limpeza, motoristas, vigilantes e voluntários. Além destes, havia também a equipa que geria o pavilhão como equipamento desportivo.”

Justificando porque o projeto foi diferente de outros na capital, Teresa explicou que tudo foi possível porque transformaram as várias equipas numa só e porque as pessoas realmente entravam sem entraves naquele espaço. “Não havia critérios para as pessoas entrarem, embora existisse uma resposta e uma triagem da Covid e da saúde em geral (doenças crónicas, medicamentos que tomavam, questões de saúde mental, etc.). Havia uma abordagem mais holística e, só depois, na gestão de muitas pessoas, existia o atendimento social. Recebíamos todas as pessoas, mesmo as que tinham animais. E recebíamos casais, pessoas com adições e problemas de saúde mental, antigos reclusos, vítimas de violência doméstica. E embora as instalações fossem adaptadas de um pavilhão desportivo, essas pessoas tinham uma receção VIP. E também recebemos as sem-abrigo crónicas, com vinte e trinta anos de vida nas ruas, e por lá se aguentaram. As regras do espaço foram trabalhadas de forma mais elástica para que todas as pessoas tivessem um encaminhamento social.”

O melhor exemplo do sucesso do projeto foi a reinserção de Tiago, um dos protagonistas do filme. Presente na antestreia, Tiago sublinhou que foi no Casal Vistoso que “recuperou a sua dignidade”. Já Plácido, outro dos intervenientes no documentário, sucumbiu a um cancro meses depois de o vermos sair do pavilhão.

Filmado num estilo em que a câmara acompanha as várias equipas e utentes do Casal Vistoso sem nunca interferir, Estou aqui () revela o empenho de uma comunidade construída em tempo recorde para lidar com uma situação de emergência. E, como se apregoava e exigia em tempos de Covid, ninguém ficava para trás.

O Doclisboa prossegue até dia 27 de outubro.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/h9al

Últimas