Frente aos elogios que circundam na sua passagem pelo Festival de Cannes, numa nova colaboração com Martin Scorsese, o seu parceiro desde “Mean Streets” (1973), Robert de Niro, ironizou com o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, ao falar sobre a personagem que vive em “Killers of the Flower Moon“, exibido fora de competição na Croisette: o populista William K. Hale, ligado ao extermínio indígena.
“Existe hoje mais certeza sobre o racismo estrutural que nos cerca, através de figuras como ele, com o seu jeito charmoso, ainda acreditam que são amadas e podem fazer a diferença. Vejam o Trump! Com ele, não foi assim? E ainda existiam pessoas que acreditavam que ele poderia fazer um bom trabalho“, ironizou De Niro na conferência de imprensa do filme em Cannes, recebendo umas palmadas no ombro de Scorsese, num gesto de “devagar com o ardor, amigo“.
Superprodução de 200 milhões de dólares, o novo projeto de Scorsese é baseado no livro de não-ficção “Killers of the Flower Moon: The Osage Murders and the Birth of the FBI”, lançado em 2017 pelo jornalista americano David Grann. É um tratado histórico contra o racismo americano que adotou os povos originários do seu território como objeto de intolerância, entre os quais a população indígena Osage. “Li o livro e ele traz um novo olhar, diferente daquele espírito de ‘É um bom dia para salvar o dia’ (‘It’s a good day to save the day’) a que nós estamos acostumados a ver no cinema. É algo mais profundo“, disse De Niro.

Scorsese recria um período do início do século XX, quando os Osage ficam ricos com a descoberta de combustível fóssil (petróleo) nas suas terras, no início do século XX, logo após a Primeira Guerra Mundial. Nos anos 1920, em Oklahoma, eles passam a ser manipulados por um senhor feudal fora de época, “King”, o poderoso William Hale (De Niro, em magistral atuação). Precisando de alguém de confiança para garantir que nenhum Osage passe do ponto, matando-os se preciso for, Hale dá emprego de motorista (e de faz-tudo) ao seu sobrinho, Ernest, vivido por um Leonardo DiCaprio maduro, com ares de Burt Lancaster. No flirtar com os indígenas que deve vigiar, eliminando alguns, Ernest casa-se com uma herdeira dessa população, Mollie, papel de Lily Gladstone. “O que me causa muita estranheza é o facto desta história tão grave não ser conhecida“, disse Lily Gladstone a Cannes.
A sua personagem, Mollie, ficou rica, mas sofre de diabetes, sem conseguir dar conta do mal-estar que sente. Padece também da dor diante das mortes dos seus conterrâneos, chegando a ir a Washington pedir ajuda. O amor de Ernest é um alívio pra ela, mas será, mais adiante, um caos, ao perceber que oseu companheiro está ligado a crimes de ódio. As confusões de Ernest acabam num tribunal, entre dois juristas: Brendan Fraser vive o advogado de defesa e John Lithgow o de acusação. Mas ainda tem nesse quiproquó a chegada de uma força de segurança recém-criada chamada FBI, representada pelo agente Tom White (Jesse Plemons).
“Desde que li o livro e fui trabalhar o roteiro com Eric Roth, sabia que este não é um filme movido pela pergunta ‘quem fez?’, mas, sim, pela pergunta ‘quem não fez’. Era preciso fazer algo além em que nós tivéssemos indígenas conosco“, disse Scorsese. “Diante de todo o respeito e de toda a confiança que os Osage depositaram em, não podia fazer um filme que não fosse arriscado“.
Cannes segue até o dia 27 de maio.

