A fim de popularizar a sua dimensão meio presencial, meio online -, com títulos disponíveis para serem vistos online, na plataforma Spcine, a 46. Mostra de São Paulo trouxe uma porção pouco conhecida da obra de um vencedor do Urso de Ouro, o romeno Radu Jude. A sessão “Cinema Almanac: Seis Curtas” estará disponível para exibição no streaming da maratona paulista até 2 de novembro (ou até alcançar o limite de 800 visualizações).
“Assim como um escritor publica um volume de contos ou poemas, um realizador pode juntar as suas curtas e oferecê-las ao público em um volume”, diz Jude, num material promocional enviado à Mostra para justificar a sua produção em pílulas (ou seja,curtas). Essa produção pode ser vista num ecrã grande por quem estiver em São Paulo, na semana que vem. Há uma projeção na segunda-feira, dia 24, no Espaço Itaú Augusta. Tem mais uma no dia 29, no Cine Satyros Bijou.

Um ano e sete meses passaram desde que o romeno de 45 anos saiu laureado de Berlim por “Bad Luck Banging or Loony Porn” (“Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental“). No que brilhou em terras alemãs, ele foi viajar para o Festival de Locarno, na Suíça, para exibir “Caricaturana”. É um filme que foi terminado em meio aos elogios colhidos pela sua longa-metragem vencedora da Berlinale 2021, uma comédia no qual abordava a pandemia. Nela, uma série de advogados, militares e políticos mascarados julgavam o “cancelamento” de uma professora, cujas peripécias sexuais vazaram na internet.
“Sempre há lugar para expor as nossas hipocrisias e para apontar o quanto elas são cómodas para o Estado, como objeto de controle”, disse ele ao C7nema em Berlim.
Em “Caricaturana“, o cineasta presta homenagem ao cinema e as artes gráficas. Com um humor mordaz, ele resgata um projeto pouco citado do realizador soviético Serguei Eisenstein (1898-1948). O responsável por “Battleship Potemkin” (1925) idealizou um filme utilizando litografias sobre uma personagem fictícia da prosa e dos palcos franceses – o falsário Robert Macaire – feitas por Honoré-Victorien Daumier (1808 -1879), numa brincadeira com sentimentos. Seria um “emocionário”, que traduzisse, a cada desenho, um estado de espírito, um dicionário de emoções. Mas Radu se apropria dessas litogravuras e, à luz de Eisenstein, faz uma cartografia de notícias do tempo atual, expressa a partir de textos que alteram a perceção do traço de Daumier.
“A nossa dramaturgia anda besuntada de fórmulas e de algorítimos montados para forjar resultados bem-sucedidos sem risco. Nunca fomos tão dependentes da ideia de que o roteiro é o imperador das narrativas, dando a cada filme uma dimensão didática. Quero atomizar essa dependência entre palavra e ação filmada, dessacralizando o verbo, ironizando um momento histórico onde qualquer letra dita fora de contexto é um pavio aceso. Fazer arte é correr riscos”, disse Jude ao C7 no Festival de San Sebastián.

Após o êxito da sua passagem por Berlim e do Urso, o responsável por “I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians” (2018) ganhou status de cineasta autor, fazendo jus à tradição de filmes provocantes da chamada Primavera Romena. O termo nasceu em Cannes, em 2007, quando “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de Cristian Mungiu valeu a Palma de Ouro à Roménia, consolidando um movimento que calcado em dramas sociais e comédias rascantes operacionalizados a partir de uma estética hiper realista, sempre referente à corrupções. “Não temos acesso fácil a fomentos na Roménia. Procuramos verbas para além do fomento público, em coproduções. Eu sou pai de duas crianças. Ao frequentar uma reunião de escola, noto o quanto a vida anda bruta na Roménia e fora dela, pois o diálogo não é possível. Tento dialogar com autores, como Eisenstein, e com o mundo que vive tão avesso à harmonia. Só rindo…”, provoca o cineasta. “Curtas são uma forma riquíssima de ensaio. Com elas, um diretor experimenta muito, mas o cinema de hoje dá pouco valor à liberdade”, lamenta Radu. “A indústria audiovisual teme o caos, mas é dele que nasce a vitalidade”.
A Mostra de São Paulo segue até 2 de novembro.

