“Marcello Mio” e como escapar à armadilha do legado

Estreado no último Festival de Cannes, “Marcello Mio” chega aos cinemas nacionais a 17 de abril, consagrando Chiara Mastroianni com um daqueles papeis que marcam uma carreira. Fazendo dela própria, ao lado da mãe, Catherine Deneuve, Chiara entra numa introspeção profunda sobre identidade, buscando em si os resquícios do falecido pai, o ícone do cinema mundial Marcello Mastroianni (1924-1996).

Foi em Paris, em janeiro passado, que nos sentámos à mesa com o experiente realizador Christophe Honoré, descobrindo um pouco mais sobre este “Marcello Mio”, a sua colaboração com Chiara Mastroianni e como se posiciona no cinema atual.

O que representa para si Marcello Mastroianni? 

Fez parte de um momento muito particular da cinefilia e do cinema italiano, muito associado a Federico Fellini. Para mim, ele representa a união ideal entre um cineasta e um ator, tornando-se um emblema do próprio cineasta. Os filmes de Fellini assemelha-se ao Mastroianni e este assemelha-se aos filmes de Fellini.  Essa união toca-me.

Chiara Mastroianni em “Marcello Mio”

Mas como a partir dele partiu para a construção deste “Marcello Mio”?

A ideia louca para este filme veio da minha convivência ao longo dos anos com a Catherine Deneuve e com a Chiara Mastroianni, com quem já tinha trabalhado. Há algo de muito peculiar na vida da Chiara. É uma atriz com uma filmografia exigente e isso torna difícil nos aproximarmos dela e daquilo que realmente é. O filme aborda concretamente isso. É importante ver como as pessoas projetam em ti o teu pai ou mãe, numa espécie de imaginário que muitas vezes encerra as pessoas numa ideia. O filme nasceu disso: de como através da ficção poderíamos dar à Chiara uma forma de escapar à armadilha do legado.

E como foi trabalhar e preparar a Chiara para este papel?

A Chiara não é uma atriz de improvisação, ela detesta isso. Trabalha bastante no teatro e a improvisação não é de todo o seu mundo. Houve, principalmente, um diálogo de confiança desde o início do projeto. Não li nenhuma biografia do Marcello e este não é de todo um biopic sobre a dinastia Deneuve & Mastroianni. A ideia era estar próxima de uma personagem feminina que quer reencontrar o pai, fazendo algo impossível: fazer reviver os mortos. O cinema permite dar aos atores a ilusão que podem dar vida, através dos seus corpos, àqueles que já morreram. Por isso, o filme segue uma veia profundamente fantasista. 

E como foi a reação dos atores quando lhes propôs fazerem o papel de uma versão deles mesmos?

Nunca é uma boa notícia para um ator quando um cineasta lhes diz que tem trabalho para eles, mas que vão fazer deles próprios. Há neles uma decepção que diria romântica, mas creio que todos entenderam o objetivo e a análise à mudança de personalidade.

No jogo de transformismo da Chiara em Marcello existe algo que poderia ser estudado intensamente do ponto de vista da psique. Houve alguma conversa com psicólogos para explorar essa metamorfose e avaliar o peso do legado?

Não falei com psicólogos para escrever o guião, mas posteriormente é óbvio que analisamos o tema da imortalidade, daquela ideia que persiste nos espectadores que o cinema torna imortais os atores, em particular nomes emblemáticos como o Marcello Mastroianni. Temos a ilusão que ele está aí por toda a eternidade, pois vive nos filmes. Podemos ver isso como algo belo, como um escape à morte, à tragédia da vida. A verdade é que a arte permite escapar de certa maneira à finitude, mas no que concerne aos atores existe uma ligação corpórea, à própria vida. Isso traz bastantes vulnerabilidades aos atores de cinema. O facto de a Chiara ter os seus pais como os seus atores emblemáticos, diria mesmo míticos, faz com que se investigue a tal questão da imortalidade,  num jogo de acesso à memória. 

Christophe Honoré

Trabalhando com a Chiara múltiplas vezes, como criaram uma relação que desaguou num filme tão íntimo como este?

Conheço a Chiara há muito tempo. O meu primeiro filme com ela foi o “Chanson d’amour”, há quase 20 anos, mas depois disso trabalhei mais vezes com ela, como no teatro. Podemos pensar que quando trabalhamos muito com um ator que o conhecemos bem e que ele representa em si a obra do próprio autor. Eu defendo exatamente o inverso, ou seja, não acredito que o cinema consuma os atores e que se trabalhamos com um passamos para o seguinte e esquecemos essa colaboração. Gosto da ideia de trupe, de me seguirem nos meus filmes. A Chiara faz parte da trupe.

De todas as presenças no elenco, o Fabrice Luchini surpreende. Como foi trabalhar com ele?

Nunca tinha trabalhado com o Fabrice Luchini, mas é alguém que conheço bem e acompanho o seu percurso. É um filme sobre atores e o Fabrice é alguém que faz muitas perguntas – sobre o ser ator, a encarnação, a relação ator e personagem. A despersonalização de um ator era um tema nevrálgico e apaixonante para ele. Sabendo isso, propus-lhe esse papel. No cinema francês temos tendência em oferecer-lhe papeis de vilão com uma determinada ferocidade. Deu-me um prazer extra dar-lhe o papel do amigo generoso e ternurento. Alguém que demonstra muita afeição pelo outro. Foi um prazer trabalhar com ele.

Com a experiência e carreira que tem, o que o move no cinema? Como escolhe o filme que faz a seguir?

Cada filme que fiz tem sempre uma particularidade que me puxa até ele. Essa escolha faz parte da base de querer estar sempre a filmar. Viver do cinema. A espontaneidade, após tantos anos de filmes, vai-se perdendo, pois começamos a procurar outras coisas. 

De certa forma, tento escapar um pouco a isso, fazendo muito teatro. E escrevo livros. Com isso tento evitar o peso do cinema na minha carreira, especialmente em tempos de dificuldades no cinema de autor, mesmo que em França sejamos hiper privilegiados em relação a isso. Claro que pensamos em fazer filmes com temas muito marcantes, mas a minha prática no cinema é semelhante à dos escritores, ou seja, gosto de passar meses a filmar com os atores, seja qual for o tema, e vivo com a ilusão que é o conjunto de uma obra que me vai definir e não um filme ou outro em si.

E quando filma pensa ainda em cinema ou as plataformas de streaming são uma opção? 

Faço parte daquele tipo de realizadores franceses com a cabeça dura e que não quer trabalhar para as plataformas de streaming, nem fazer séries. Talvez um dia faça isso, mas vejo as plataformas como algo que quer vender a pele dos cineastas. É normal, é a sua estratégia. E é normal que se aceite trabalhar com elas, mas há que ter consciência que nos estamos a vender. Não podemos ser bombeiros e pirómanos à vez. 

Tenho a ideia do cinema de autor, que a 7ª arte tem algo a dar às pessoas, seja na escrita, seja na política dos autores. O cinema é uma porta de arte. Vemos o caso do David Lynch, que não fez assim tantos filmes, mas marcou o cinema e a sociedade. E até marcou aqueles que nunca foram a uma sala ver os seus filmes. E não o fez com o epíteto de cineasta marginal, daqueles que fazem os seus filmes na “garagem”. Ele estava no coração de um sistema de estúdios e da indústria norte-americana. Nós, em França, vivemos ainda muito num sistema artesanal que defende o cinema de autor com financiamento público. Um sistema que permite o lançamento anual de 150-200 obras, agora com mais diversidade. É um sistema glorioso e temos de o preservar.

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