“Para Vigo Me Voy!” leva Cacá Diegues de volta a Cannes

(Fotos: Divulgação)

Escolhida para servir de título ao documentário centrado nos 60 anos de cinema de Carlos Diegues (1940-2025), a frase Para Vigo Me Voy! é uma expressão repetida como bordão pelo artista mambembe Lorde Cigano, um dos protagonistas da obra-prima do realizador alagoano: Bye Bye Brasil. Em 1980, ela concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes, e teve uma sessão especial em 2024, em homenagem à produtora LC Barreto. Este ano, a Croisette reencontra-se com esse filme de culto por meio dos seus resquícios (fotos, registos de arquivo) utilizados na narrativa documental regada de saudade sobre o legado de Diegues – que era chamado de Cacá pelos seus pares profissionais e afetos. A realização é da montadora Karen Harley, que trabalhou com o homenageado na edição de Tieta do Agreste (1996), e do cineasta Lírio Ferreira, em cartaz no seu país com Serra das Almas”. A projeção da fita, acolhida na seção Cannes Classics, será no dia 19 e ela concorre ao troféu L’Oeil d’Or, a Palma da não ficção.

Finalizado longo após a morte de Cacá, em fevereiro, Para Vigo Me Voy! foi produzido numa conjunção entre a Coqueirão Pictures, Globo Filmes, GloboNews, Sinédoque, Dualto Produções e Raccord Produções. Nas suas entrevistas, encaradas como os derradeiros depoimentos de Cacá, o artesão autoral alagoano fala sobre cinema, política, Brasil e vida. Essas entrevistas são intercaladas com trechos dos seus filmes e bandas-sonoras, compostas por artistas como Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso.

O filme é uma grande aula de cinema brasileiro, e não é apenas sobre Cacá. São muitos artistas que marcaram época. Para citar alguns, Antonio Pitanga, Jeanne Moreau, Zezé Motta, Marília Pêra, Sonia Braga, Antonio Fagundes, Wagner Moura e Jesuíta Barbosa; Moacir Santos, Chico Buarque, Jorge Benjor, Caetano e Gil”, afirma o produtor Diogo Dahl, num comunicado de imprensa.

Autor de crónicas semanais no jornal O Globo, Cacá deixou uma longa-metragem inédita em finalização, Deus Ainda É Brasileiro, rodada na sua terra natal, Alagoas. É a continuação do sucesso de bilheteira de 2003, Deus É Brasileiro, que vendeu 1.635.212 entradas. Na trama ainda inédita, o Todo-Poderoso (vivido por Antonio Fagundes) regressa à Terra no dia do velório de um amigo e chega ao planeta com o intuito de acabar com tudo, insatisfeito com os rumos da Humanidade. Passa até por uma reunião celestial para decidir o que será de nós, mas ao matar as saudades da sua amiga Madá (Ivana Iza) e conhecer a jovem Linda (Laila Vieira), o Criador começa a repensar os afetos.

Não se trata de uma comédia pura e simples, no sentido de fazer rir despropositadamente. Eu diria que este filme é uma comédia humanista, uma crónica do que está diante de nossos olhos e, ao mesmo tempo, que nos faz rir, nos indicando caminhos mais adequados nesse momento difícil do Brasil”, disse Cacá ao C7nema antes das filmagens.

Em terras sul-americanas, a sua filmografia sempre gerou debates e mobilizou multidões à porta das salas de exibição. Há 50 anos, ele emplacou o seu maior êxito comercial, “Xica da Silva”, com a já citada Zezé Motta, que estreou em 1976 e (na ocasião) vendeu 3.183.582 de ingressos. Há citações a ele em “Para Vigo Me Voy!”. Essa reconstituição de época ganhou os Candangos de Melhor Filme e Realização no Festival de Brasília à força de um debate sobre a força feminina e sobre luta decolonial. Nele, a ironia característica do pensamento de Cacá assegura várias situações cómicas. “Não acho que Deus seja tão divino assim, pois tenho a impressão de que ele é formado por partes de nós mesmos”, disse Cacá, quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Foi Cannes que acolheu a estreia de Cacá nas longas-metragens, “Ganga Zumba”, exibido na Semana da Crítica de 1964. Prestigiado ainda na Croisette pela Quinzena de Cineastas, onde exibiu pérolas como “Chuvas de Verão” (em 1978), Cacá concorreu às láureas da Côte d’Azur ainda em 1984, com Quilombo, e em 1987, com Um Trem Para As Estrelas. Foi jurado da Palma dourada em 1981. Em 2010, voltou ao júri, dessa vez, ao das curtas. Naquela data, o cineasta e a sua companheira, Renata Almeida Magalhães, passaram pelo Palais des Festivals no dia em que ele completou 70 anos (19 de maio), para exibir 5xFavela: Agora Por Nós Mesmos, produzido pelo casal.

Em 2012, Cacá presidiu o júri da Caméra d’Or. Em 2018, exibiu O Grande Circo Místico, uma coprodução lusa. “Cultivo a cinefilia de dois grandes cineastas portugueses, ambos infelizmente já falecidos: Manoel de Oiveira e Paulo Rocha”, disse Cacá ao C7nema. “Oliveira era um grande mestre, um homem que inventou um cinema pessoal que lhe convinha e que era, ao mesmo tempo, universal. Quanto a Rocha, ele era um dos grandes cineastas de minha geração, em todo o mundo”.

Antonio Fagundes no set de “Deus Ainda É Brasileiro”, filmado por Cacá em Alagoas, em 2022 – Crédito: Gabriel Moreira

Disponível no Brasil em plataformas de streaming como a Globoplay e a MUBI, Bye Bye Brasil segue considerado o exercício autoral de maior vigor de Cacá. Foi visto por 1.488.812 espectadores no seu lançamento, há 45 anos. No enredo, o sanfoneiro Ciço (Fábio Jr.) e a sua companheira, Dasdô (Zaira Zambelli), que está grávida, são surpreendidos pelo encontro com a Caravana Rolidei, um circo sobre rodas. A companhia itinerante é formada pelo já citado prestidigitador Lorde Cigano (José Wilker), a dançarina Salomé (Betty Faria) e o Rei dos Músculos, Andorinha (Príncipe Nabor). Ciço, apaixonado por Salomé, decide acompanha-los pelo país adentro e arrasta Dasdô, que tem o seu parto feito de improviso por Cigano, recebendo uma bebé, Altamira. Lucy Barreto, produtora que estava no apogeu na segunda metade da década de 1970, graças ao blockbuster Dona Flor e Seus Dois Maridos(1976), contou ao C7nema detalhes dos bastidores desse road movie que inspirou o poster de Para Vigo Me Voy!”.
Depois de ver ‘Xica da Silva’, eu fiquei encantada com o trabalho do Cacá, e procurei-o para que desenvolvêssemos um projeto. Ele me propôs filmar ‘Tereza Batista Cansada de Guerra’, do Jorge Amado. Fui atrás dos direitos, mas o Jorge pediu um preço nas alturas, entusiasmado com o sucesso que fizera seu ‘Dona Flor’, filmado por nós, na LC. Disse ao Cacá: ‘Você não pode pensar numa outra coisa’. Aí ele me veio com um parágrafo: ‘Um casal de artistas mambembes viaja pelo Brasil com um casal de camponeses, descobrindo um novo país’. Ora, num momento em que a televisão se espalhava por toda a nação, aquela ideia soou ótima. Aí eu sugeri que ele fizesse uma viagem, acompanhado por um bom roteirista – que, no caso, era o Leopoldo Serran -, para pesquisar”, lembra Lucy. “Na sequência, Cacá falou com o Chico Buarque para fazer a música e deu naquela beleza”.

Além de Para Vigo Me Voy!“, o Brasil participa de Cannes também noutras latitudes. Vai lutar pela Palma de Ouro com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e disputa o prémio das curtas da Semana da Crítica com Samba Infinito, de Leonardo Martinelli. Na Un Certain Regard, há uma coprodução da brasileira Tatiana Leite com Portugal: O Riso e a Faca, de Pedro Pinho. Há ainda a presença do cineasta Marcelo Caetano no júri da Queer Palm de 2025.

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