Incluído na programação de realizadores da mostra Brazil on Film, agendada entre 1 de maio e 30 de junho no BFI Southbank, em Londres, Rogério Sganzerla (1946-2004) terá uma rara montra na sua pátria, neste fim de semana, com a exibição da sua obra-prima O Bandido da Luz Vermelha (1968) na emissora pública brasileira EBC. A transmissão está marcada para as 21h (hora de Brasília; 0h em Lisboa) deste sábado, na TV Brasil (nome oficial do canal). Sucesso de público e crítica em 1968, a produção centra-se nos feitos do marginal que transformou São Paulo num faroeste (do Terceiro Mundo) a céu aberto.
“Ver O Bandido da Luz Vermelha exibido numa televisão aberta, educativa, num domingo, para o público brasileiro como um todo, é algo muito especial. Esse tipo de exibição amplia o alcance da obra e permite que novas gerações tenham acesso a um filme que continua absolutamente atual, inquieto e vibrante”, afirma a atriz e cineasta Djin Sganzerla, filha do realizador, que cuida da obra do pai ao lado da irmã, Sinai, e da mãe, a também atriz e realizadora Helena Ignez. “Temos realizado um trabalho constante de difusão da obra do meu pai. A filmografia dele segue absurdamente pulsante, contemporânea. Recentemente, acompanhei várias exibições de A Mulher de Todos (1969), que acabámos de restaurar em 4K. É delicioso ver o quanto esse filme é comunicativo, de humor ímpar, com interpretações magistrais, diálogos brilhantes e uma mise-en-scène incrível. O público sai das sessões verdadeiramente embasbacado. Em dezembro, o filme seguirá para a Coreia, o que nos deixa muito felizes.”
Vanguardista para as plateias que o viram na estreia, O Bandido da Luz Vermelha venceu o prémio Candango de Melhor Filme no Festival de Brasília de 1968. A sua narrativa é conduzida pela voz de locutores radiofónicos que anunciam o noticiário policial. Pelas ruas da Boca do Lixo, o chamado Quadrilátero do Pecado, as autoridades empenham-se na captura da personagem do título (interpretada por Paulo Villaça, em estado de graça), temida pelas famílias de bem. Enquanto isso, Luz narra a sua escalada no crime e reflete sobre a existência no país, cruzando-se com figuras marginalizadas como Janete Jane (personagem de Helena Ignez).
“É um filme que todo brasileiro acima de 16 anos deveria ver pelo menos uma vez”, orgulha-se Djin, que participou na segunda parte da história, Luz nas Trevas (2010), realizada por Helena Ignez e apresentada mundialmente no Festival de Locarno, na Suíça, onde foi distinguida pela crítica.
Apaixonado por O Bandido da Luz Vermelha, o curador suíço Giona A. Nazzaro — que há cinco anos renovou Locarno, transformando-o num dos mais prestigiados fóruns de cinema do mundo — foi um dos responsáveis pelo resgate do olhar de Sganzerla além-Atlântico.
“Se Sganzerla tivesse nascido na França ou em Itália, seria reverenciado como um gigante entre os realizadores do seu tempo”, afirmou Giona, aquando da exibição de Documentário (1966) e Abismu (1977), dois pilares da estética do cineasta, em território helvético.
Em Portugal, uma seleção de títulos de Sganzerla, entre os quais o seu canto do cisne, O Signo do Caos (2003), está disponível na Filmin.pt.

