Em busca de um regresso no mercado de língua inglesa, iniciado em 2023 com a estreia de “Silent Night” (“O Silêncio da Vingança”), John Woo ganhou de Cannes uma visibilidade (sob as lentes da autoralidade) que há tempos lhe faltava. Nesta sexta-feira, o seu legado chega às telas do festival francês com a projeção da versão restaurada de “Hard Boiled” na seção Classics. A demanda por esse filme de culto de Hong Kong foi tão alta que lhe abriram uma vaga ainda no Cinéma De La Plage.
“A minha lógica de mundo é inspirada no ideal dos romances de cavalaria e pelo olhar dos grandes realizadores de Hong Kong do passado”, disse Woo, em entrevista por email ao C7nema, dada em decorrência de uma retrospectiva de thrillers chineses na América do Sul. “Gosto de inverter certezas”.
Cannes encheu-se de adrenalina ao matar as saudades de uma estética que funciona como ancestral da cinemática hoje em voga em “John Wick” e derivados. Em “Hard Boiled”, o ator de eleição de Woo, Chow Yun-Fat, vive Yuen, um inspetor de polícia conhecido como Tequila. Ele fica transtornado quando o seu parceiro morre num tiroteio com gangsters numa casa de chá. Tequila une-se a Alan, um assassino profissional, para vingar o amigo e impedir que esta quadrilha mate mais gente inocente. Começa daí uma matança sem fim.
“O cinema apresentou-me o sonho”, disse Woo ao C7. “Era um menino na China, vindo de uma realidade pobre, onde a arte era a saída para se vislumbrar alguma transcendência. Aprendi a filmar a partir das coreografias dos musicais que vi quando jovem. Inclua aí ainda as coreografias das lutas de espada dos filmes de espadachim de Hong Kong dos anos 1960. Esse encanto leva-me a querer trabalhar em diferentes culturas, a viajar o mundo em busca de sistemas distintos de trabalho e de representação”.
Hoje com 78 anos, ele inventou formas de enquadrar as trocas de tiros que redesenhou os códigos do filão policial numa ótica torta, de redenções penosas. Passou uns seis anos sem filmar nada e, no ano passado, cumpriu a promessa de refilmar o seu clássico “The Killer”, de 1989, num remake com Nathalie Emmanuel e Omar Sy.
“Filmar um filme de ação com romantismo, do jeito ousado que fizemos na década de 1980, foi uma experiência muito solitária”, disse Woo, na ocasião de uma mostra dos seus filmes no CCBB, do Rio de janeiro. “Em ‘O Matador’ original, os atores e a equipa não faziam a menor ideia do filme do que estávamos a criar. Improvisávamos muito, pois não utilizei o roteiro no set. Escrevia as cenas de ação na hora. Escrevia e filmava. É uma energia de descoberta“.
O Festival de Cannes segue até o dia 24 de maio, quando Juliette Binoche anuncia a produção ganhadora da Palma de Ouro de 2025.
Cinemática em fervura máxima na onda John Woo
(Fotos: Divulgação)
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