Celebrado pela crítica europeia pela habilidade em tratar sequelas ásperas da exclusão com doçura, Feito Pipa (2025) chegou à Berlinale pela secção Generation KPlus, candidatando-se ao Urso de Cristal e ao Teddy, na esteira do sucesso que o seu realizador, o cearense Allan Deberton, alcançou com o filme anterior, Pacarrete (2019). Com essa obra, o Cinema latino-americano descobriu uma estética particular, coloridíssima, de falar de pessoas que, como quixotes dos dias de hoje, moldam um mundo próprio, sem dar atenção à indiferença alheia. É o caso de Gugu, a personagem protagonista desta longa-metragem com aura de Sessão da Tarde — o mais popular programa de cinema vespertino do Brasil — que Berlim aplaude neste momento. O rapaz de 12 anos, vivido por Yuri Gomes, é exímio com a bola e ambiciona ser um craque. Assume-se como queer e enfrenta os homofóbicos com determinação. O problema é a falta de empatia do pai viúvo, Batista, papel de Lázaro Ramos, e o facto de a avó, Dilma, estar a perder a memória, numa representação da velhice que Teca Pereira assume com brilho.
“É um filme que tacteia um lugar de descoberta, a partir da relação de um pai com um filho que não é aceitável para o que se considera normativo. Não sei se o filme tem um lugar de formatação que caiba numa Sessão da Tarde, um programa que cresci a ver, a assistir a filmes como My Girl – O Meu Primeiro Amor (1991) muitas vezes. Há, sim, ingredientes mais acolhedores e aspetos nostálgicos para lidar com situações que precisam de ser debatidas”, explicou Deberton ao C7nema, no Berlinale Palast.
Cada vez mais presente no ecrã, Teca Pereira encontra em Feito Pipa a celebração da liberdade na relação da sua personagem com o neto, numa sociedade ainda muito intolerante com a população gay.
“O Gugu é livre e a Dilma também, e respeitam-se nesse lugar, numa relação de carinho e de cuidado”, afirma a atriz, que, tal como Lázaro, se mostra satisfeita por ver que o conjunto de longas-metragens brasileiras presentes na Berlinale este ano apresenta a população negra em painéis sentimentais, sem foco na violência. “Eu já fui discriminada, mesmo sem me aperceber.”
A discriminação debatida por Deberton em Feito Pipa não passa, em primeiro plano, pela cor da pele, mas pela orientação sexual. Com a lucidez de Dilma a deteriorar-se, no avanço de um processo de demência, Gugu acabará por ficar com Batista e a nova família dele, mas existe desconforto e rejeição. A figura paterna do rapaz revela uma forte resistência em respeitar diferenças. Essa discussão atraiu Lázaro Ramos, que se destacou no Cinema ligado ao universo LGBTQIAPN+ ao protagonizar Madame Satã (2002), há 24 anos. Depois de ver o exercício de humor, na fronteira da dramédia, que o realizador construiu em Pacarrete, o ator manifestou o desejo de filmar com ele.
“Estava em Gramado quando ele apresentou Pacarrete e expressei a vontade de trabalharmos juntos. Quando surgiu o argumento de Feito Pipa, o que mais me interessou foi precisamente essa ligação temática histórica com Madame Satã, noutra perspetiva, comigo num lugar diferente, o do pai que ama, mas é conservador. O facto de a narrativa abordar a infância e de o Yuri, baiano como eu, integrar o elenco atraiu-me de vez”, explicou Lázaro.
Com uma nova longa-metragem a caminho, intitulada A Adoção (2025), Deberton aposta no termo “ternura” para definir o seu olhar.
“Tento mostrar como o mundo teria um olhar menos duro se fosse mais terno. Às vezes penso se não deveria mudar o foco de histórias com personagens queer, mas percebo que, perante as resistências, é necessário fazer mais e mais”, afirma o realizador.
A Berlinale decorre até 22 de fevereiro.


