Yves-Marie Mahé trabalha essencialmente em torno da reutilização de arquivos cinematográficos e no seu “Jeune Cinéma” – estreado no Festival de Roterdão e exibido recentemente no Festival de Turim – reúne material para nos levar ao já extinto Festival International du Jeune Cinema, que decorreu largos anos (1965-1983).
Mais que um festival de cinema, a localidade de Hyéres reuniu na década de 1960 uma quantidade incrível de talentos de cinema, todos eles rotuladas como ‘jovens’, numa referência às novas ondas sísmicas sentidas no cinema francês. Ora, na localidade onde Godard filmou “Pierre Le Fou” as sessões de cinema eram movidas a controvérsia, a guerras políticas, sociais e artísticas, com posições às vezes tão extremadas que só resta ao espectador desatar-se a rir perante a anarquia instalada, especialmente quando eram anunciados os vencedores.
O festival – que a certo ponto da história moveu-se para Toulon, antes de regressar a Hyéres – é minuciosamente documentado por Yves-Marie Mahé, o qual, de forma cronológica, nos vai mostrando não apenas as obras que por lá passaram, como os autores e o júri, muitas vezes envolvidos em confusões, boicotes, rebeliões e enormes discussões. Todas as convulsões da época, as políticas e sociais que depois se refletiram na arte, aparecem retratadas a partir da rebeldia da própria organização do certame, que inicialmente encontrava muitos participantes em França, pelo menos até ao famoso Festival de Cannes se converter, a Semana da Crítica olhar mais para o lado experimental do cinema, e nascer a essencial Quinzena dos Realizadores (agora Quinzena dos Cineasta).
E pelo grande ecrã desta pequena, mais incisiva e compactada obra que reúne apenas arquivos, damos de caras e a declarações na época de nomes como Emmanuelle Riva, Guy Gilles, Philippe Garrel, Chantal Akerman e até um ultra-tímido Léos Carax, que tem mesmo dificuldade em explicar o que é isto do “jeune cinéma”. E temos discussões eternas, como quando Bob Swaim declara que apesar da importância da Nouvelle Vague, que começou como um ato político e artístico, retorceu-se para o lado do autor/criador que já fazia filmes a olhar para o umbigo, no ato de pura masturbação intelectual; e ainda a conversa entre o cinema de hoje e o do amanhã.
Além do valor histórico do documentário de Yves, “Jeune Cinéma” tem ainda um outro poder: relembrar filmes desta eṕoca que caíram no esquecimento, ou então foram tão arrasados que os seus autores desapareceram de circulação. Por isso, mais que uma obra histórica e informativa de cariz curioso, “Jeune Cinéma” é também uma playlist de filmes, pessoas e ideias.




















